terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Estar presente ou ser presente?



Começámos cedo demais a ser reféns da época natalícia. Ainda nem tinham sido assadas as primeiras castanhas e já estávamos a ser bombardeados com acessórios de toda a espécie e feitio. Quase como se houvesse uma intrusão e um desnorte que nos provoca desorientação e incompreensão.

Que tempos são estes em que vivemos presos a um futuro que nem sabemos se chega? Que forma de estar é esta que nos obriga a viver dois passos à frente e a condenar sistematicamente o momento presente?

Queixamo-nos depois de que as crianças estão ansiosas. Preocupadas. Que dormem mal e que não conseguem descansar. Não há grandes hipóteses de que aconteça o contrário quando nós, os ditos adultos orientadores deste “carrossel”, embarcamos nestas antecipações com tão pouco sentido.

Vivemos para o futuro. E isso não tem de ser necessariamente mau, obviamente. É necessário, e prudente, pensar no que pode vir. No que nos pode bater à porta ou nos imprevistos que podem vir alojar-se nos nossos dias. Mas viver de futuro, somente, não traz paz a ninguém. Traz destabilização. Incoerência. Pressa pouco legitimada.

Para quê querer viver o que ainda não chegou?

Para quê antecipar o Natal e vesti-lo de um consumismo que nada rima com as origens da dita época?

Que sentido estamos a dar ao nosso dia-a-dia se não estamos mergulhados nele?

Estamos a viver, de facto? Ou a voar sobre os dias como quem não quer saber ou descobrir o que anda cá a fazer?

Uma coisa de cada vez e tudo a seu tempo.

O tempo de cada coisa não se ultrapassa por querermos vivê-la antes de tempo.

O Natal só o é quando chegar.

Viver tudo antes do tempo é, quase sempre, tempo profundamente perdido.

Já dizia Chiara Petrillo “apenas vivendo o hoje é possível enfrentar a vida”.


Marta Arrais

Sem comentários:

Enviar um comentário

Este é um espaço moderado, o que poderá atrasar a publicação dos seus comentários. Obrigado