ENSINAR É SEDUZIR POR ENCANTAMENTO
É maravilhar, cativar, fascinar, deslumbrar, encantar! E quem são os valentes de tão heroica façanha? Muitos, muitos, com certeza, sobretudo quando não se desgastam pelas estradas fora, quando não estão longe da família, quando as dificuldades da vida, a velhice e as doenças os não aflige. Concordemos, porém, que, mesmo que zelosamente apostem nisso e suem as estopinhas, não é fácil a um professor encantar certos públicos, nem sequer provocar que certos públicos se deixem encantar! Sem querer generalizar, a dispersão, a diversidade de solicitações e as circunstanciais existenciais de cada aluno, não facilitam muito deixar-se encantar por uma sala de aula. Ainda por cima quando tem a etiqueta de obrigatória. Mas o que seria duma sociedade sem obrigações? É sabido, porém, que, hoje, aquilo que toca ao de leve nas barbas da obrigatoriedade não goza de grande simpatia nem de sucesso. Assim, há quem goste muito mais do lado de fora da escola do que do lado de dentro, por mais apaparicado que seja! Só o talento, a humildade, o sentido da missão, a paciência de Job e o jeito de quem ensina, é que será capaz de, todos os dias e o dia todo, fazer passar o conhecimento com aquele prazer e paixão de encantar e contagiar. Descodificar conteúdos, cativar o olhar e a atenção dos Tonecas e doutros que tais, satisfazer os hiperdotados, despertar a curiosidade dos indiferentes, respeitar os ritmos de aprendizagem e seduzir intelectualmente no gosto pelo saber, é mais que hercúleo! Um nazareno conseguiu tal proeza, é verdade, as multidões corriam para o ouvir. Afirmavam que nunca tinham ouvido falar alguém com tanta sabedoria e natural autoridade. Mesmo assim, quem programava e controlava o ensino, em vez de lhe atribuírem o Global Teacher Prize, ofereceram-lhe a Coroa do Martírio. O impacto social dos seus saberes, a sua inovação pedagógica e o seu método eram verdadeiramente revolucionários e eficazes, mas não se encaixavam naquelas cabecinhas cheias de teias de aranha sem vassoura que lhas varresse! No entanto, o seu estilo de mestre perdurou, deu origem a uma cultura, a uma civilização, dividiu a História, inspirou instituições, escolas, universidades e academias, gerou empatia e encanto junto de educadores, arquitetos, pintores, músicos, escultores, literatos, filósofos e cientistas, promoveu a concórdia e a fraternidade universal, ensinou a arte de fazer bem e bem fazer sem aceção de pessoas. E ele aí está, vivo, atento, atual e atuante, continuando a ser “a beleza de qualquer beleza”, como afirmava São Boaventura, e a dizer-nos: ‘aprendei de mim que sou manso e humilde de coração’ (Mt 11,29).
A nobre missão de ensinar transforma vidas, alegra o presente e projeta o futuro, inspira, transforma sonhos em realidade. Ensinar e educar, porém, não são bem a mesma coisa. Ensinar atua mais de fora para dentro, oferece dados, alimenta a memória, desenvolve a inteligência e espevita a vontade. Educar é tirar de dentro para fora, é trazer ao de cima o que a pessoa tem de melhor, é libertar o seu coração de tudo quanto o possa prejudicar como centro unificador da pessoa. É “do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições, perversidade, má-fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios” (Mc 7, 21-22). O coração tem razões que a razão desconhece, dizia Blaise Pascal. Atendendo às limitações da razão, Pascal defendia que há uma outra categoria essencial para acolher as realidades que não são puramente racionais. É o espírito de finesse, de gentileza, de finura, o qual é da ordem do coração, não da razão. O Papa Francisco falava da necessidade de se recuperar o coração, pois “muitos, para construir os seus sistemas de pensamento, sentiram-se seguros no âmbito mais controlável da inteligência e da vontade. E, ao não se encontrar um lugar para o coração, como algo distinto das faculdades e das paixões humanas consideradas separadamente, também não se desenvolveu suficientemente a ideia de um centro pessoal, em que a única realidade que pode unificar tudo é, em última análise, o amor”.
O coração é a parte mais íntima, o centro do desejo, o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular, é a fonte e a raiz de todas as outras potências, convicções, paixões e escolhas. Indica o que se pensa, se acredita, se quer realmente, o que se guarda, o real, o inteiramente pessoal. Ali “não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”. O coração não deve perder o ‘controle político’ de si próprio nem se deve desvalorizar como centro unificador da pessoa (cf. Francisco, Dilexit nos).
O ser humano, sem ensino, sem esse conhecimento de fora para dentro, poderá ser boa pessoa, mas faltar-lhe-ão as ferramentas do conhecimento para intervir com qualidade e eficácia. Sem a educação, sem adquirir valores, sem se aprimorar moral, ética e socialmente, sem capacidade de gerir as suas emoções, sem esse conduzir de dentro para fora, o indivíduo pode tornar-se um ás, um técnico fulgurante, uma enciclopédia de saberes, mas sem graça e empatia social. Se quem ensina e seduz por encantamento também encantar e arrastar pelo testemunho de vida, ó maravilha das maravilhas, que bom! Ensinar e educar definem o futuro de uma sociedade, molda o comportamento individual e coletivo, sustenta o desenvolvimento, impulsiona a inovação e gera oportunidades. Os desequilíbrios “de que sofre o mundo atual estão ligados àquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem” (GS10).
D. Antonino Dias
Caminha, 30-09-2026
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