sexta-feira, 30 de agosto de 2019

MAS QUE GRANDE GRITARIA AQUELA!....

a foto de perfil de Antonino Dias, A imagem pode conter: 1 pessoa
Ao longo da história, sempre existiram pessoas a despertar e a manter viva a consciência coletiva. Atentas aos sinais dos tempos, sem preconceitos, sabem apreciar e interpretar os fenómenos sociais e os seus impactos no futuro. Por isso, sem subserviências e com olhos de ver, tornam-se críticos mordazes do poder e da governança e nada moles na forma de o fazer. Procuram sacudir, fazer acordar, forçar a inversão das coisas. Não são pessoas frustradas ou de mal com a vida, são profetas, e basta!... Por isso, embora sejam indispensáveis no desenrolar da História, não raro, tornam-se antipáticos, fazem aquecer os fusíveis dos dormentes e instalados nas suas seguranças, ao ponto de serem fortemente admoestados, silenciados, perseguidos, presos... Vivem convictos de que o poder não pertence à essência da humanidade. Mesmo que constituídas em autoridade, as pessoas são relativas, e quem o tem, exerce um poder delegado e em função do bem comum. Exerce-o não só para cuidar da prosperidade económica e do bem estar social, mas também para que a pessoa se realize em plenitude. E a pessoa aspira à imortalidade, tem dentro de si ambições de infinito, parece-lhe impossível que para lá do horizonte da História e da complexidade majestosa e bela do universo, não haja algo que corresponda a esta sua ânsia interior de sobrevivência e sentido. Para nós, os crentes, a história caminha, de facto, em direção aos Novos Céus e à Nova Terra (cf. Ap 21,1). Em direção a uma realidade que nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem qualquer mente humana, por mais sagaz que seja, pode sequer imaginar! (cf. 1Cor 2,9).
O sentido último da existência de qualquer autoridade é servir, rasgando horizontes de alegria e de verdadeira esperança. Não se trata de querer teocracias ou regimes sagrados. Tampouco se trata de querer ferir a justa autonomia das realidades terrenas ou de querer que todos pensem e digam a mesma coisa ou governem de igual forma. Trata-se de um exercício do poder que seja capaz de promover o bem comum de forma verdadeiramente solidária e fraterna, na justiça e na paz. Que faça convergir as energias de todos os cidadãos no bom uso da sua liberdade e na consciência do próprio dever e sentido de responsabilidade. Esta missão de congregar e conduzir o povo à alegria de viver com esperança, se reclama competência, também exige humildade e respeito por todos, tendo presente que todas as formas de absolutismo significam retrocesso e fiasco. Quando se tem consciência do exercício do poder como responsabilidade delegada e se age em conformidade, todos, crentes e não crentes, poderemos ir petiscando, desde já, um pouquinho dessa vida que nós, os crentes, esperamos viver em plenitude nos Novos Céus e na Nova Terra, onde também esperamos ver, com grande júbilo e satisfação, os Tomés de hoje, emocionalmente deslumbrados e a confessar: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28).
Tudo isto vem a propósito do profeta Elias e da sua ação. Outrora, o grande império do rei Salomão, por razões da fragilidade humana, dividira-se em dois reinos. Cada um sem qualquer projeção política e ambos sempre mal servidos. O profeta Elias constata o mal estar do povo e confronta-se com os desmandos governativos do rei Acab. Acab tinha-se casado com uma princesa fenícia que logo arrasta consigo os costumes e a religião dos fenícios, onde o deus Baal era considerado o senhor da fertilidade e da vida. No entanto, em vez da vida que o povo esperava, o país, para além da incompetência governativa, sofre uma terrível seca e, consequentemente, a ruina do povo. Elias mostra que se a situação se deve à débil governança sem justiça e sem direito, também se deve ao facto de terem voltado as costas ao Deus da Aliança. Surge assim um forte quiproquó entre Elias e o rei Acab e os profetas de Baal subservientes ao poder do rei. Elias desmascara os deuses falsos e aqueles que os servem. Esforça-se por levar o povo à redescoberta da verdade e a fazer com que ele escolha, de novo, o Deus que dá a vida e não os ídolos que provocam a morte. O rei Acab não gostou da festa, saiu ao encontro de Elias considerando-o a ruína de Israel e com vontade de lhe cortar o pescoço. Elias, porém, responde que «Não, eu não sou a ruína de Israel. Pelo contrário, tu e a casa de teu pai é que o sois, por terdes abandonado os preceitos do Senhor”. Empoleirados nas suas certezas, travam-se de razões e fazem uma aposta para fazer valer cada um a sua razão e a sua força. Assim, o rei Acab convocou a sua malta e todos os profetas de Baal e de Achera, centenas deles. Elias, o único profeta do Senhor que ainda restava, aproximou-se deles e chama-os a atenção pelo facto de viverem na indecisão, com um pé dentro e outro fora: “Até quando coxeareis com as duas pernas? Se Javé é o Deus verdadeiro, segui a Javé. Se é Baal, segui a Baal!» O povo não respondeu a esta tirada de Elias, não sabia o que responder. Então, Elias coloca sobre a mesa os dados da aposta, um momento com certo humor que até podemos imaginar e espreitar da nossa janela. Elias pediu dois novilhos para que eles escolhessem um, o preparassem e colocassem sobre a lenha, mas sem lhe chegar fogo. Elias ficaria com o outro, prepará-lo-ia e colocá-lo-ia sobre a lenha, também sem lhe chegar fogo. Invocariam então, cada um o seu Deus e aquele que respondesse enviando o fogo para consumir a vítima seria reconhecido como o único Deus verdadeiro. Todos acharam muito bem. Com certeza que apertaram a mão ou trocaram outro gesto habitual a selar a aposta. E lá chegou a hora do ajuste de contas. As centenas de profetas de Baal, ligados ao rei Acab, depois de terem preparado as coisas, foram os primeiros a invocar o seu deus, Baal. Invocaram-no “desde manhã até ao meio-dia, gritando: «Baal, escuta-nos!» Mas nenhuma voz se ouviu, nem houve quem respon¬desse. E dançavam à volta do altar que tinham levantado. Quando era já meio-dia, Elias começou a escarnecer deles, dizendo: «Gritai com mais força! Talvez esse deus esteja entre¬tido com alguma conversa! Ou então estará ocupado, ou anda de viagem. Talvez esteja a dormir! É preciso acordá-lo!» Então eles gritavam em voz alta, feriam-se, segundo o seu costume, com espadas e lanças, até ficarem cobertos de sangue. Passado o meio-dia, continuaram enfurecidos, até à hora em que era habitual fazer-se a oblação. Mas não se ouviu resposta nem qualquer sinal de atenção”.
Chegou então a vez de Elias invocar o seu Deus. Todo o povo se aproximou dele enquanto ele preparava as coisas. Erigiu um altar ao nome do Senhor e cavou um sulco em volta do altar. Dispôs a lenha e colocou o novinho já esquartejado e pronto sobre ela, e disse-lhes: «Enchei quatro talhas de água e derramai-a sobre o holocausto e sobre a lenha.» Depois acrescentou: «Tornai a fazer o mesmo.» Tendo eles repetido o gesto, acrescentou: «Fazei-o pela terceira vez.» Eles obedeceram. A água correu à volta do altar até o sulco ficar completamente cheio. À hora do sacrifício, o profeta Elias aproximou-se, dizendo: «Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, mostra hoje que és Tu o Deus em Israel, que eu sou o teu servo; às tuas ordens é que eu fiz tudo isto. Responde-me, Senhor, responde-me! Que este povo reconheça que Tu, Senhor, é que és Deus, aquele que lhes converte os corações.» De repente, o fogo do Senhor caiu do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a lama e até mesmo a própria água do sulco. Ao ver isto, o povo prostrou-se de rosto por terra, exclamando: «O Senhor é que é Deus! O Senhor é que é Deus!» (1Reis 18).
Perante tantos deuses que o mundo de hoje nos oferece e entroniza, é bom que não nos deixemos coxear com as duas pernas, que não andemos também nós com um pé dentro e outro fora...
D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 30-08-2019



Elogio da contemplação


Resultado de imagem para menina e jactos de agua


Paro.
Ao som das ondas do mar a bater na areia acalmo o pensamento.
E escuto o silêncio.
O dia é de nevoeiro e tudo em volta se propicia a ver para além do olhar.
Sente-se, ainda assim, o calor do sol que cumpre a sua missão.
E uma brisa suave.
E o murmúrio das vozes que teimam em deixar sair palavras que não tiram férias.

O tempo, esse é infinito e ainda assim teimamos em dissecá-lo,
iludidos que andamos de que isso nos ajuda a organizar uma agenda anual onde colocamos intervalos para sair da rotina.
Essa, pode sufocar-nos, atarefados como estamos em manter um ritmo de vida que muitas vezes é mais de sobrevivência do que de sentido.

Por isto, os tempos de férias deveriam ser mais do que dias contemplados num contracto laboral ou num qualquer calendário escolar.
São estes essenciais para o encontro com a nossa verdade mais profunda,
para a coragem de arrumar a tralha interior,
para renovar a promessa que fizemos a nós mesmos na raiz dos nossos sonhos,
para renovar laços que nos unem uns aos outros e que validam e alimentam a nossa humanidade divina.

Em verdade, a via da contemplação será sempre aquela que nos ajudará a entender que nos encontramos sedentos de inteireza mesmo no meio dos nevoeiros da vida.

E é esta que nos oferece a possibilidade de parar, convocando os ponteiros do relógio a conceder-nos a possibilidade de nos sentirmos maravilhados e agradecidos pelo dom imenso que é a vida.


Cristina Duarte

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Guardiões uns dos outros

Resultado de imagem para porta velha com cadeado

Sentar-nos e escutar. Olhar olhos nos olhos e exprimir atenção e cuidado.
Eis um dos actos sagrados do mundo e da convivência humana.
E quanta sede latente ou manifesta desta mesma escuta e acolhimento!
Talvez nos falte essa arte de quem acolhe cada pessoa como única e irrepetível, com sonhos tantas vezes escondidos e medos que não são revelados, que tolhem a pessoas e a deixam parada na vida.
Talvez nos falte a arte de entender que cada encontro é a possibilidade de um novo nascimento, a possibilidade de retirar as teias dos olhos e nos podermos encantar com a verdade profunda de cada pessoa.
Ainda assim, teimamos em caminhar com a mala de pré-conceitos, convencidos que somos de que realmente conhecemos as pessoas, boicotando a genuína cultura do encontro. Ainda mais, quando falamos dos nossos mais íntimos e próximos.
Talvez nos falte a coragem de abrir a porta do coração e acompanhar os silêncios ou as lágrimas de quem muitas vezes na luta da solidão só precisa que lhe emprestemos os ouvidos. Tarefa gratuita e quantas vezes o remédio para as feridas que teimam em permanecer abertas.
Podemos fingir que não vemos, podemos encher a agenda de mil tarefas, podemos até enganar-nos a nós mesmos e dizer(nos) que não temos jeito para isso.
Porém, acolher pela escuta não é um acto heróico ou predestinado a algumas pessoas. É um acto que podemos treinar e tornarmo-nos realmente naquilo que somos: guardiões uns dos outros.

Cristina Duarte


terça-feira, 27 de agosto de 2019

A Igreja recorda hoje Santa Mônica

Resultado de imagem para mônica de hiponaDe  origem berbere, Mônica nasceu no ano 331, em Tagaste, norte da África, no seio de uma família opulenta, mas de antigas raízes cristãs. Aplicou-se, com dedicação, aos ensinamentos da Sagrada Escritura; sua forte espiritualidade foi forjada pela oração e assídua prática dos Sacramentos, além dos quais se coloca ao serviço da comunidade eclesial. Casou-se com Patrício, homem ambicioso, pagão, irascível, de caráter difícil, que também lhe foi infiel. Mônica, doce, benévola, capaz de dialogar nos momentos oportunos, com o seu método, composto de espera, paciência e oração, - que o sugere até às suas amigas, que lhe confiam seus problemas e incompreensões conjugais – consegue vencer as rudezas do marido, a ponto de levá-lo a abraçar a fé.

Esposa e mãe

Aos 22 anos, Mônica dá à luz ao primogênito Agostinho, seguido por outro filho, Navígio, e uma filha, da qual não se sabe o nome, e os educa segundo os princípios cristãos. Tornando-se viúva, aos 39 anos, administra os bens da família, dedicando-se, com amor incomensurável à sua prole. Quem mais causou preocupações à cuidadosa e astuta mãe foi Agostinho, o “filho de tantas lágrimas”; de coração irrequieto e ambicioso retórico, na busca da verdade, ele se distancia da fé católica e vaga de uma filosofia à outra. Mônica jamais deixa de rezar por ele; pelo contrário, segue todas as vicissitudes da sua vida e lhe permanece sempre ao lado. Por isso, transfere-se para Cartagena e, depois, para a Itália, quando o filho, no ápice da sua carreira, como docente de retórica, vai morar em Milão. Seu carinho materno e as suas orações acompanham a conversão de Agostinho, que, ao receber o batismo pelo santo Bispo Ambrósio, decidiu voltar para Tagaste, onde fundou uma Comunidade de servos de Deus. Mônica estava com ele, quando tiveram que embarcar no porto de Óstia com destino à África. Porém, ao esperar o navio, foram obrigados a passar alguns dias ali.

Êxtase em Óstia e a morte

No entanto, Mônica e Agostinho mantêm intensos diálogos espirituais. A um destes se refere o chamado “êxtase em Óstia”, narrado nas suas Confissões (XIX, 10, 23-27): «Aconteceu... encontrar-nos a sós, eu e ela, apoiados em uma janela que dava para o jardim interior da casa em que morávamos. Era em Óstia, sobre a foz do Tibre, onde, longe da multidão, depois do cansaço de uma longa viagem, recobrávamos forças para a travessia do mar. Ali, sozinhos, conversávamos com grande doçura, esquecendo o passado, ocupados apenas no futuro, indagávamos juntos, na presença da Verdade, que és tu, qual seria a vida eterna dos santos... percorremos uma a uma todas as coisas corporais, até o próprio céu... E subimos ainda mais em espírito, meditando, celebrando e admirando tuas obras, e chegamos até o íntimo de nossas almas. E fomos além delas, para alcançar a região da abundância inesgotável... onde a vida é a própria Sabedoria... E enquanto assim falávamos dessa Sabedoria e por ela suspirávamos, chegamos a tocá-la com supremo ímpeto de nosso coração».

Assim, Mônica sente ter atingido o ápice da sua vida e confessa ao filho: “No que me diz respeito, esta vida já não tem mais nenhum atrativo para mim. O que estou fazendo ainda aqui? Não sei. As minhas expectativas aqui na terra já se esgotaram. Somente uma coisa me fazia permanecer aqui em baixo...: ver, antes de morrer, que você se tornou cristão católico. Meu Deus me satisfez completamente, porque vejo que você até despreza a felicidade terrena para servir a Ele. O que estou fazendo aqui?”.

Alguns dias depois, Mônica adoece e morre aos 56 anos. Seu corpo foi enterrado em Óstia Antiga, na atual igreja de Santa Áurea. O tempo, provavelmente, é uma basílica paleocristã com uma necrópole ao lado.

As relíquias de Santa Mônica

Os restos mortais de Santa Mônica descansam, por muitos séculos, na igreja de Santa Áurea. Hoje, no lugar, pode-se ver apenas uma lápide, porque, no século XV, o Papa Martinho V quis que as relíquias fossem transladadas para Roma, na igreja de São Trifão, confiada aos frades Agostinianos – depois englobada a uma grande Basílica dedicada a Santo Agostinho. Ali, ainda hoje, encontram-se respostas aos tantos porquês diante de um sarcófago de mármore verde, na capela decorada com afrescos, em 1885, por Pietro Gagliardi. (https://is.gd/rENcJI

A imagem pode conter: 5 pessoas

domingo, 25 de agosto de 2019

A Porta Estreita


https://www.youtube.com/watch?v=vc-XpgIqS7I


A liturgia deste domingo propõe-nos o tema da "salvação". Diz-nos que o acesso ao "Reino" - à vida plena, à felicidade total ("salvação") - é um dom que Deus oferece a todos os homens e mulheres, sem excepção; mas, para lá chegar, é preciso renunciar a uma vida baseada nesses valores que nos tornam orgulhosos, egoístas, prepotentes, auto-suficientes, e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega, de dom da vida.
Na primeira leitura, um profeta não identificado propõe-nos a visão da comunidade escatológica: será uma comunidade universal, à qual terão acesso todos os povos da terra, sem excepção. Os próprios pagãos serão chamados a testemunhar a Boa Nova de Deus e serão convidados para o serviço de Deus, sem qualquer discriminação baseada na raça, na etnia ou na origem.
No Evangelho, Jesus - confrontado com uma pergunta acerca do número dos que se salvam - sugere que o banquete do "Reino" é para todos; no entanto, não há entradas garantidas, nem bilhetes reservados: é preciso fazer uma opção pela "porta estreita" e aceitar seguir Jesus no dom da vida e no amor total aos irmãos.
A segunda leitura parece, à primeira vista, apresentar um tema um tanto deslocado e marginal, em relação ao que nos é proposto pelas outras duas leituras; no entanto, as ideias propostas são uma outra forma de abordar a questão da "porta estreita": o verdadeiro crente enfrenta com coragem os sofrimentos e provações, vê neles sinais do amor de Deus que, dessa forma, educa, corrige, mostra o sem sentido de certas opções e nos prepara para a vida nova do "Reino".



sábado, 24 de agosto de 2019

Deixa que me sente hoje contigo, Maria,

Jogo das crianças Criança no campo do dente-de-leão Flor do verão


Deixa que me sente hoje contigo, Maria,

Que sejas tu o meu lugar de pausa,

Porque têm sido muitos os estímulos,

E quero pedir-te que me ajudes nas minhas respostas.


Mostra-me como o Teu coração se deixou abrir ao mistério de Deus.

Talvez tão distante da tua realidade de Nazaré,

Material, palpável, concreta.

Permitiste-te acreditar no que parecia impossível.

Deixaste que te marcasse a vida esse Sim desafiador.


Fala-me de como se vive assim, em alegria simples.

De como te deixaste iluminar pelo brilho do Menino,

Que pudeste sentir crescer-te no ventre.

Que conversas terás partilhado com o teu Senhor,

Quando te viste eleita, na tua humildade!...

Deixaste que reinasse a esperança,

Quando à tua volta se impunham a dúvida e a incerteza.

Confiaste na palavra,

Aguardando os tempos necessários para que pudesse cumprir-se…


Diz-me como semeavas a presença de Deus nos teus dias.

Como deixavas chegar a Graça às rotinas da tua casa,

Às conversas com as mulheres e os homens do teu tempo,

Às escolhas que tiveste de fazer,

Às decisões que tomaste com a tua família.


Foi neste caminho de encontro contínuo que te preparaste para o Calvário?

Foi nesta confiança, treinada, aprendida, que pudeste ser fiel até à Cruz?

Esse momento ignóbil, impensável, cruel,

Da mais dura perda e de abandono…

Esse momento que, de um ou outro modo, chega sempre à vida de cada um…


Quando a derrota nos deixa à beira da loucura e do abismo…

Quando o negro não nos permite ver para além das nuvens do desespero…

Quando os nossos alicerces, “tão robustos”, se vergam como palha seca sob o peso do sofrimento…

Estende-nos a tua mão,

Segura-nos no teu olhar,

Ensina-nos a subir contigo os nossos calvários, Mãe!

De olhos postos no Crucificado…

consigamos ver para além dos véus da dor, a promessa de Deus.



Catarina Gregório Martins