A felicidade mora do lado de dentro... ... onde bate o coração!
Um novo dia, uma nova semana... Abrimos os olhos em cada amanhacer e existe uma fonte de oportunidades que acorda também.
A felicidade mora do lado de dentro, onde os pensamentos são bonitos. Onde florescem novas ideias e sonhos.
A felicidade mora num gesto de carinho; um abraço ou um sorriso. A procura do encontro, da partilha e união.
A felicidade mora no amor, no cuidarmos de nós e de quem nos está próximo.
A felicidade mora na fé; parar, respirar e acreditar que a vida sabe sempre o nosso lugar.
A felicidade mora na coragem; mesmo que os caminhos sejam sinuosos, "há sempre um dia que o caos vira calmaria" e a felicidade bate à porta, pois ela mora do lado de dentro, onde bate o coração.
O coração tem razões que a razão desconhece, afirmava o filósofo e cientista Blaise Pascal. A par do espírito geométrico que fundamenta o discurso científico, Pascal, atendendo às limitações e insuficiências da razão, defendia que há uma outra categoria essencial para acolher as realidades que não são puramente racionais. É o espírito de finesse, de gentileza, de finura, o qual é da ordem do coração, não da razão. No entanto, quando o coração se sente atraído e traído pelas mentiras e traições do mundo, dos pinga-amor e quejandos, quando se deixa intoxicar pela violência e pelos vícios, convites e desafios da riqueza e do poder, quando perde o ‘controle político’ de si próprio e se desvaloriza como centro unificador da pessoa, haverá sempre quem julgue que não há nada nem alguém que o possa arrancar de tal situação... nem a razão, a ciência exata. Mas será que apenas resta ter pena destes corações escaqueirados? Camilo Castelo Branco, na sua sátira social construída a partir das três fases da vida do personagem Silvestre da Silva, e a que deu o título de “Coração, Cabeça e Estômago”, compara a queda do coração à “queda que se dá dum garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos”. Ora, acrescenta ele, “o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que damos dum ignóbil burro. O cavalo despenha-nos e, com as crinas eriçadas, resfolga e arqueia-se com gentis corcovos. O burro, depois que nos sacode pelas orelhas, não é raro escoicear-nos”. Sem termos de martirizar a cabeça e o estômago para além dos picos do bom senso, e para que as armas se transformem em violinos e as injustiças em solidariedade e amor, o Papa Francisco acaba de apelar ao mundo e a quem tiver ouvidos para ouvir que é preciso recuperar a importância do coração a fim de que, nesta sociedade líquida, cada vez mais narcisista e autorreferencial, cada vez mais anti coração, se possa aprender com o coração, falar com o coração, agir com o coração, pois é no coração que se “encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas”. “Muitos - diz o Papa -, para construir os seus sistemas de pensamento, sentiram-se seguros no âmbito mais controlável da inteligência e da vontade. E, ao não se encontrar um lugar para o coração, como algo distinto das faculdades e das paixões humanas consideradas separadamente, também não se desenvolveu suficientemente a ideia de um centro pessoal, em que a única realidade que pode unificar tudo é, em última análise, o amor”. Em última análise, “poder-se-ia dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas”. O coração indica o que se pensa, se acredita, se quer realmente, o que se guarda e não se conta a ninguém, a verdade, o real, o inteiramente pessoal. No entanto, frequentemente, “esta verdade íntima de cada pessoa está escondida debaixo de muita superficialidade, o que torna difícil o autoconhecimento e ainda mais difícil conhecer o outro”. O Livro dos Provérbios exorta: “Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele jorram as fontes da vida. Preserva-te da linguagem enganosa, afasta de ti a maledicência” (Pr 4, 23-24). São Mateus afirma que do coração “procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias” (Mt 15, 19). É fácil danificar e perverter o coração com aparências, dissimulações e enganos. “Para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”. Educar o coração exige amor, disciplina, atenção, disposição do coração. Implica tocar a essência do outro e enriquecê-lo com sabedoria, verticalidade, honradez. Reclama que se use a razão, o coração, a fé e o amor para que cada um tenha uma relação sincera consigo mesmo, com Deus, com os outros e com a criação. Nessa Carta Encíclica, embora realçar o amor do Sagrado Coração de Jesus seja o causa deste documento, Francisco fala da necessidade de se voltar a falar do coração e de se aprender a amar. Como ideal, ele aponta o Coração de Cristo, “a mais alta plenitude que a humanidade pode atingir”. Ao refletir sobre o coração de Cristo, que ele chama de “síntese encarnada do Evangelho”, Francisco pretende que todos sejamos movidos por um poderoso amor afetivo a Cristo, sendo o coração que é preciso recuperar se quisermos curar o nosso próprio coração. Só o amor de Cristo “pode dar um coração ao nosso mundo e reavivar o amor onde quer que pensemos que a capacidade de amar foi definitivamente perdida”. Ao contemplarmos o Sagrado Coração de Jesus, nessa experiência do encontro com o amor de Cristo que nos abraça e nos salva, tudo se torna numa questão de amor, fazendo que a nossa vida esteja em saída, seja dom e encontro, relacionando-nos uns com os outros de forma saudável e feliz, dando as mãos na construção de um mundo apoiado no amor e na justiça. D. Antonino Dias . Bispo Diocesano Portalegre-Castelo-Branco, 29-11-2024.
Temos tão pouco tempo! Queria fazer mais, muito mais, ou até ter tempo para simplesmente NÃO FAZER NADA!
Falamos constantemente da falta de tempo, de como o nosso tempo está super ocupado e não temos TEMPO.
Ora o tempo é igual para todos e é medido pelos ponteiros de um relógio ou a sombra do sol pelo que, parece que nós nos queixamos geralmente é do que não fazemos com o tempo que temos.
Na verdade deveríamos pensar mais na falta de sentido que parece que damos ao tempo que temos. Vivemos num cansaço constante que encobre a vontade de usar o tempo com sabedoria. Vivemos assoberbados de coisas que nos ocupam o tempo, mas nem sempre lhe dão sentido. Esse sentido, sim, é que é relativo. Para mim pode fazer tanto sentido passar uma hora a fazer voluntariado, como para outro passa-lo no ginásio, ou enfiado numa sala a jogar computador. Mas será que tem o mesmo sentido? Uns dirão que sim, outros que não.
Sei que, por melhor que me saiba não ter nada que fazer com o meu tempo, a não ser ganhar cama no sofá e ver as misérias da televisão, fico com uma sensação de desperdício de tempo. Falta-me o corrupio das ideias na cabeça, a partilha de loucuras, as conversas sobre projetos. Falta-me sair do conforto e visitar alguém, ou até mesmo tão simples como ligar a alguém. Será que falta tempo? Não será apenas vontade?
Sei que somos senhores do nosso tempo mas, dependendo do sentido que dele fazemos, podemos ajudar os outros a terem um tempo de melhor qualidade e assim dar mais sentido ao nosso.
Dá sentido ao teu tempo e sim, vais-te cansar mas, pelo menos sabes qual é o teu norte, sabes o caminho pois a tua bússola está no sítio certo.
Citando o Papa Francisco na Mensagem para o dia Mundial da Juventude: "Prefiro o cansaço dos que estão a caminho, do que o tédio dos que estão parados". Acho que esta reflexão é fundamental para dar sentido à forma como gastas o teu tempo e se isso te cansa ou te dá tédio.
Nenhum de nós se basta a si mesmo. Esta vida implica que a alimentemos cada dia, que sejamos capazes de encontrar tudo quanto é necessário para a manter. Seja água, comida, descanso… todos temos as mesmas necessidades que, se não forem satisfeitas durante algum tempo, implicam a morte.
Mas será que deve ser cada um por si? Será que há pão para todos e que temos de o repartir de forma justa? Ou a escassez dos bens de primeira necessidade implica uma guerra escondida entre todos os que vivem no mesmo tempo?
O pão que tenho nas mãos agora mesmo é meu ou é nosso? Tenho algum tipo de obrigação de o repartir? Até que ponto a vida dos outros é também minha? E que o meu bem-estar é também um dever dos outros?
Se aqui escrevo estas linhas, isso significa que nunca me faltou o pão de cada dia. Por mérito meu? Não! Porque faço parte de vários grupos, uns mais alargados, outros mais restritos, que não só convivem como se entreajudam. Eu sou parte de vários nós, nos quais sou tão responsável por alguns outros que me sinto na obrigação de lhes dar prioridade em algumas questões como, por exemplo, no pão…
Quando peço o pão nosso de cada dia, será que penso naqueles que o suplicam gritando, e que sofrem ainda mais porque ninguém os escuta? São mesmo meus irmãos? E as crianças que têm ao seu cuidado são menos valiosas do que as minhas filhas?
A própria oração do Pai Nosso começa com uma afirmação clara: Sou filho de Deus, mas não sou filho único.
Importa que eu tenha bem claro que serei julgado pela forma como administrei o pão, que nunca foi só meu, mas de todos aqueles que tenho, ou deveria ter, como irmãos.
Esta foi a pergunta que uma amiga me fez durante uma semana agitada. Sorri por dentro. Escutar Deus é tão simples e ao mesmo tão difícil. Que desafio este! Que despertar...
Sei que Deus me fala a cada instante. . Das mais diversas formas. Sei que me acompanha a cada passo. Caminha comigo. E o que eu adoro caminhar!
Sei que me leva pela mão. Que me empurra para seguir em frente. Mesmo que eu dê passos atrás, Ele vai comigo. Não me abandona na ausência da certeza.
Sei que me acolhe a cada momento de zanga e falta de esperança. Conforta-me com o seu amor. É colo. É casa. Celebra comigo todas as alegrias. Mostra-me como a vida é bonita, simples e mágica.
Sei que abana a minha estrutura. Exige como um pai e uma mãe. Quer-me ver crescer em sabedoria e amor. Desperta a minha luz no meio das sombras. Mostra-me a dualidade da vida e o caminho da fé.
Escutar Deus, é do mais bonito e profundo que existe em mim. É sentir que Ele é toda a minha existência.
Escutar Deus é confiar, entregar-me à vida de cada dia. Escutar Deus é traze-lo comigo no pensamento, no coração e nas palavras. É vê-lo em mim em tudo o que faço. É vê-lo em cada uma das pessoas que me rodeia. Cada um de nós tem esse brilho. É a lanterna que nos leva a casa.
Escutar Deus... É abrir o coração e deixar que Ele me fale, guie e ilumine. Tu sabes sempre quando Ele é. Fecha os olhos e sente.
No 34.º Domingo do Tempo Comum, celebramos a Solenidade de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo. É o corolário do caminho que percorremos ao longo do ano litúrgico. Depois do percurso feito com Jesus, depois de termos escutado as suas palavras e de termos visto os seus gestos, concluímos, proclamamos e confessamos que Ele é o nosso guia, o nosso mestre, o nosso Senhor, a nossa referência fundamental.
A primeira leitura anuncia que Deus vai intervir no mundo, a fim de eliminar a crueldade, a violência e a opressão que marcam a história dos reinos humanos. Através de “filho de homem” que vai aparecer “sobre as nuvens”, Deus vai devolver à história a sua dimensão de “humanidade” e fazer com que os seus filhos caminhem em paz. Os cristãos verão na figura desse “filho de homem”, um anúncio da realeza de Jesus.
O anúncio de um “filho de homem” que virá “sobre as nuvens” para instaurar um reino que “não será destruído” leva-nos a Jesus. Ele veio ao encontro dos homens para lhes propor uma nova ordem, em que os pobres, os débeis, os fracos, os marginalizados, aqueles que não podem fazer ouvir a sua voz nos grandes areópagos internacionais não mais serão humilhados e espezinhados. Jesus, vestindo a pele de um “filho de homem”, introduziu na história uma nova lógica, substituindo a lógica do da arrogância, da prepotência, da ambição e do egoísmo, por uma lógica de amor, de serviço, de doação, de humanidade. É verdade que, mais de dois mil anos depois, o “reino” proposto por Jesus ainda não baniu do mundo, de forma definitiva, a violência e a maldade; contudo, esse “reino” está presente na vida do mundo, como uma semente a crescer ou como o fermento a levedar a massa. Como discípulos de Jesus, assumimos a missão de fazer nascer no nosso mundo e na nossa história o reino da verdade, da justiça e da paz? Procuramos ser testemunhas e arautos do mundo novo, do Reino de Deus? Na segunda leitura, o autor do Livro do Apocalipse apresenta Jesus como o Senhor do Tempo e da História, o princípio e o fim de todas as coisas, o “príncipe dos reis da terra”, Aquele que há de vir “por entre as nuvens” cheio de poder, de glória e de majestade para instaurar um reino definitivo de felicidade, de vida e de paz. É, precisamente, a interpretação cristã dessa figura de “filho de homem” de que falava a primeira leitura.
No Evangelho, Jesus assume a sua realeza diante de Pilatos, o “prefeito” romano da Judeia. No entanto deixa claro que a sua realeza não assenta em lógicas de poder, de autoridade, de domínio, de ambição, como acontece com os reis da terra. A missão “real” de Jesus é dar “testemunho da verdade”; e concretiza-se no amor, no serviço, no perdão, na partilha, no dom da vida.
O que significa concluirmos o ano litúrgico celebrando a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, rei do universo? Significa que, depois de termos caminhado com Jesus ao longo de um ano inteiro, sentimos que Ele é o nosso verdadeiro guia, o nosso verdadeiro mestre, o nosso verdadeiro Senhor; significa que, depois de termos andado com Ele por tantos caminhos e de termos enfrentado com Ele tantos desafios, confiamos incondicionalmente nas suas orientações e propostas; significa que, depois de termos experimentado a sua amizade e o seu amor, queremos apostar n’Ele toda a nossa vida; significa que, depois de termos caminhado ao ritmo das suas palavras e de termos sido alimentados com o seu Pão, nos sentimos mais fortes, mais livres, mais próximos da vida verdadeira que buscamos; significa que, tendo constatado a centralidade e a importância de Jesus na nossa vida, queremos construir à volta d’Ele toda a nossa existência. Aceitamos a “autoridade” de Jesus, não porque Ele nos impõe o seu poder, mas porque Ele nos toca com o seu amor. Como é que entendemos a realeza de Cristo? Reconhecemos Jesus como o nosso rei?
www.dehonianos.org
Solenidade de Cristo Rei - Ano B
Jesus é enviado do Pai que, pelo Espírito Santo, veio fundar o Reino de Deus na Terra.
Ele recriou o ser humano na “justiça e na santidade da verdade”.
Cristo é a própria verdade e veio ao mundo para dar testemunho da verdade.
Por ele o mundo é salvo.
Recadinho:
Quem é o rei de meu coração? Com que foi que Jesus conquistou meu reino? As coisas de Deus têm preferência em minha vida? Tenho dificuldade em aceitar alguma verdade de fé em particular? Colaboro na difusão do Reino de Deus?
O Santo Padre dirige-se aos jovens de todo o mundo com a mensagem para a XXXIX Jornada Mundial da Juventude, que se celebra no próximo dia 24 de novembro de 2024. Com o mote “Aqueles que esperam no Senhor, caminham sem se cansar”, o Papa convida os jovens a abraçarem a esperança e a superarem os desafios da vida com fé e determinação.
Reconhecendo as dificuldades que marcam a juventude, como a incerteza do futuro e as pressões sociais, o Santo Padre encoraja os jovens a não se deixarem paralisar pelo cansaço ou pela apatia. Pelo contrário, desafia-os a “tornar-se peregrinos da esperança”, confiando em Deus para encontrar força e propósito no caminho da vida. Na mensagem, o Papa Francisco sublinha a importância de enfrentar as adversidades com fé, indicando a Eucaristia como fonte de sustento espiritual e uma forma de encorajamento para os jovens a saírem da sua zona de conforto, a viverem a Jornada como peregrinos e a abraçarem o próximo com gestos concretos de amor e solidariedade.
O Papa sublinha ainda que esta Jornada é um passo importante na preparação para o Jubileu dos Jovens, em 2025, um tempo de renovação espiritual que convida os jovens a caminhar na gratidão pelo dom da vida, na procura do Senhor e no arrependimento por decisões erradas que, por vezes, são tomadas, rumo a um encontro transformador com Deus.
Com esta mensagem, o Papa deixa um apelo à alegria, à ação e à esperança, desafiando os jovens a transformarem o mundo com o testemunho de uma fé viva e comprometida.
Consta que Santa Cecília cantava como um rouxinol. Não como o rouxinol mecânico do conto de Andersen, mas como o verdadeiro, o que inspirou a ópera de Igor Stravinsky. É invocada como padroeira dos músicos e da música, morreu a cantar. Cristã convicta e convincente, a força da sua palavra e do seu testemunho levou muitos à conversão. Foi martirizada pelo ano 230 e a sua festa celebra-se a 22 de novembro. Quem dera que houvesse celebridades do canto e da música a cantar com paixão, com arte e com beleza, os incríveis e sempre atuais feitos do maior revolucionário de todos os tempos. Não para distrair e animar a malta, como no Titanic, conscientes de que todos acabariam por naufragar. Mas para que a barca de Pedro se liberte deste iceberg que é a indiferença dos seus tripulantes e passageiros que deixaram de ser fermento, luz e sal, ignorando que ela tem de chegar a bom porto com a colaboração de todos. Na cultura e na ciência, nas artes e nos ofícios, nas escolas e nas universidades, na política e na economia, nas empresas e no desporto, no jornalismo e nas redes sociais, onde quer que for, se, aí, cada cristão, fosse qual fosse o seu mister, agisse naturalmente como cristão, testemunhando Aquele que é o caminho a verdade e a vida, como o mundo seria diferente, mais justo e mais humano, transformado a partir de dentro, a partir do coração de cada pessoa! A música é uma linguagem universal, a mais completa de todas, atinge o homem no seu todo, ajuda-o a exprimir-se melhor. Nela entra a imaginação e a sensibilidade, a inteligência e a memória, os sentimentos e as emoções. Tem valor artístico, cultural, social e educativo, desenvolve o sentido do belo. Lutero escreveu que a música "é uma maneira de disciplina que torna o homem melhor, mais paciente e razoável. Vem de Deus e não dos homens. Por isso, não receio de o dizer: depois da teologia, nenhuma arte lhe pode ser igualada”. Na liturgia, também a música e o canto ocupam um lugar privilegiado. Não são um adorno, um anexo, são um elemento constitutivo, a própria liturgia. Na Constituição sobre a Sagrada Liturgia diz-se que, na liturgia, "Deus fala ao seu povo... E o povo responde a Deus, ora com cânticos ora com orações". E o modo próprio do povo participar é "sobretudo nas respostas, nas orações e no canto". “Quanta gente foi tocada no profundo de suas almas ao ouvir música sacra; e quantos se sentiram novamente atraídos por Deus pela beleza da música litúrgica! Vocês que têm o dom do canto podem fazer cantar o coração de tanta gente nas celebrações litúrgicas”, afirmava Bento XVI. De facto, quando a música e o canto litúrgico têm qualidade e beleza, tornam-se sinal do sagrado, emprestam voz ao silêncio, tornam-se a arte de exprimir o que a voz não é capaz de dizer, conduzem à oração, manifestam a fé de quem canta e transmitem a fé a outros, revelam o coração da pessoa e a qualidade da sua relação com Deus, são uma graça divina, ajudam a passar a mensagem dos textos bíblicos aos diversos ambientes culturais. Uma das missões dos coros litúrgicos é colocar a assembleia a cantar, com arte e beleza, rezando. As nossas celebrações litúrgicas trazem-nos, não raro, ao pensamento a afirmação de Afonso Lopes Vieira: "Não me assusta demasiadamente que tantos portugueses não saibam ler; penaliza-me mais que não saibam cantar". A Liturgia das Horas do dia de Santa Cecília traz um texto de Santo Agostinho que, dada a sua beleza e apelos, aqui recordo, em parte. Escreveu ele: “Cada qual pergunta como há de cantar ao Senhor. Canta para Ele, mas não cantes mal. Deus não quer ouvir um cântico que ofenda os seus ouvidos. Cantai bem, irmãos. Se te pedem que cantes para um bom apreciador de música de modo que lhe agrade, não te atreves a cantar se não tens preparação musical, pelo receio de lhe desagradar, porque um bom artista notará os defeitos que a qualquer outro passam despercebidos. Quem se atreverá a cantar para Deus, tão excelente conhecedor de cantores, juiz tão completo e tão bom apreciador de música? Como poderás oferecer-lhe tão excelente audição de canto que em nada ofendas ouvidos tão perfeitos? Mas eis que Ele mesmo te sugere a maneira como lhe hás de cantar. Não andes à procura de palavras, como se com elas pudesses expressar aquilo que agrada a Deus. Canta com júbilo. Cantar bem para Deus é cantar com júbilo. Que é cantar com júbilo? Compreender e não poder explicar com palavras o que se canta com o coração. Os que cantam na colheita, na vindima ou em qualquer trabalho intenso, começam a exultar de alegria com as palavras do cântico; mas depois, quando cresce a emoção, sentem que já não podem explicá-la por palavras, desprendem-se da letra das palavras e entregam-se totalmente à melodia jubilosa. O “júbilo” é aquela melodia que traduz a incapacidade de exprimir por palavras o que sente o coração. E a quem pode consagrar-se este cântico de júbilo senão ao Deus inefável? É realmente inefável aquele que não podes dar a conhecer por palavras. E se não tens palavras para o dar a conhecer e não deves permanecer calado, nada mais te resta senão cantar com júbilo. Sim, para que o coração possa expandir a imensidade superabundante da sua alegria sem se ver coartado pelas sílabas das palavras, cantai ao Senhor com arte e com júbilo”.
D. Antonino Dias- Bispo Diocesano Portalegre-Castelo Branco, 22-11-2024.
À medida que nos aproximamos da Solenidade de Cristo Rei, somos confrontados com uma imagem de realeza que desafia a nossa compreensão. O rei que procuramos não é o típico monarca rodeado de opulência e poder, mas sim um rei que se caracteriza pela entrega e amor ao próximo e que se revela no rosto dos pobres e dos marginalizados.
Tal como Pilatos, para quem Jesus era um enigma, temos uma visão limitada do que constitui a realeza, julgando apenas pela aparência. No entanto, o verdadeiro Rei que nos procura não é aquele que ostenta riqueza e autoridade, mas sim aquele que demonstra compaixão e se identifica com os últimos. É um rei que caminha ao lado dos fracos e se manifesta nas coisas simples.
É nesta capacidade de cuidar dos "mais pequeninos", quando agimos com amor, que Cristo Rei reconhece em nós os herdeiros do seu reino de amor.
Recentemente tenho recebido notícias menos boas relativas a pessoas que gosto muito e que me apanham de surpresa. De certeza que já te aconteceu saberes que alguém ficou desempregado, ou que alguém descobriu uma doença, ou no limite a partida de alguém querido. Perante isso, que palavras dizer? Como consolar sem que pareça aqueles chavões do costume.” Vai correr tudo bem”, “o que é teu está reservado”, “quem muda Deus ajuda”, ou “está em paz”. Como posso consolar ou apoiar sem que pareça algo oco? Não é nada fácil e volta e maia dou por a tentar consolar usando as mesmas frases do costume e a pensar: “não conseguias melhor?”
Acredito que só nos apercebemos disto quando somos nós os consolados! Ai… nem sempre é fácil escutar certos consolos paternalistas que nos custam a digerir:” eu bem sei o que isso é”, “eu já passei por isso” e sentimos que a nossa dor foi desvalorizada.
Por isso falo em arte. Falo na capacidade de materializar os sentimentos e perceções e torna-las em algo agradável. Falo na capacidade de olhar para algo e dar-lhe uma forma que suscite emoções. Confesso que não domino a arte. Não gosto de sentir que tenho de ser consolada, mas reconheço que bem ou mal, quando alguém se aproxima de mim e diz: ”hoje não estás bem, passa se alguma coisa?”, só isso me consola. Não preciso de mezinhas nem tristezas, mas empatia. Mas é uma arte tão difícil que muitos preferem nem enveredar por ai. Preferem não perguntar, não saber, não estar pois não sabem o que dizer. Dou por mim a fazer o mesmo!
Não tenho respostas, mas sei que é mais fácil consolar quando conhecemos as pessoas, apesar de ser muito mais difícil consola-las porque a tristeza dos nossos é por si uma enorme tristeza. Sei que quando conhecemos alguém e sabemos que está triste, podemos encontrar algo que torne aquele momento especial porque há algo que nos une e que permite conversas únicas. Há gente de abraços, de presenças e palavras capazes de iluminar o lugar mais escuro e preencher o mais fundo dos vazios e sou grata por ter algumas “artistas” destas na minha vida. Enquanto isso, vou treinando a minha arte para poder saber consolar e ser consolada.
Nós não somos daqui. É importante que procures viver sem esperar por frutos evidentes das tuas boas ações. Habitua-te a viver sem grandes esperanças no imediato.
Quando fizeres algum bem ignora a falta de mudanças para melhor. O mundo, e tudo o que nele existe, muda. Mas muda devagar, muito devagar. É preciso enorme paciência para insistir, apesar da falta de resultados.
As transformações nos outros, e em nós, dão-se primeiro no interior, e é a partir daí que se vão expressando a pouco e pouco, de forma tão lenta que mais parece nada estar a mudar. Mas é desta mesma forma que crescem as árvores e o mar vai transformando as rochas.
Talvez não consigamos ver, durante o tempo da nossa vida, as grandes consequências do que fazemos neste mundo.
A nossa vida mais importante está no futuro. Nós não somos daqui. Chegámos sem saber como e voltaremos também sem compreender por que razão viemos, nem porque temos de regressar.
Mais ainda, não sabemos quando acabará esta vida (que é apenas uma pequena parte da outra), pode ser apenas daqui a três dias ou daqui a trezentos anos, quem sabe?
Cada um de nós deve buscar ser feliz. Não neste mundo nem já hoje, mas a uma profundidade onde habita o que em nós não passa.
De momento, cumpre-nos viver, mais do que sobreviver. E, ainda, conviver mais do que viver… e que, ao partilharmos assim as nossas vidas, as enchamos de amor. Que o amor seja a razão, o apoio e aquilo que nos liga uns aos outros.
A linha que separa o bem do mal é a mesma que separa o amor do egoísmo.
Não procures prémios neste mundo, pois nós não somos daqui.
Muitos de nós passamos grande parte da nossa vida a conduzir. Ora a ir, ora no regresso. Ora em viagens de lazer, ora em viagens mais no âmbito profissional. E a verdade é que, no trânsito, parecemos (muitas vezes) pessoas diferentes. É como se o pior de nós viesse ao de cima e nos assaltasse de uma forma grotesca e descontrolada. Tenho dificuldade em compreender que espécie de fenómeno nos destaca tão afincadamente da vida aparentemente calma que levamos para nos atirar para um modo de sobrevivência tão intrincado.
Tenho assistido, tal como tantos de nós, a uma panóplia de violência gratuita, falta de respeito, insultos, manobras perigosas propositadamente operadas para enervar este ou aquele condutor. E apercebo-me de que ninguém está a salvo. É como se, também dentro de um carro, tivéssemos de nos proteger de um perigo sempre iminente onde não há zonas de segurança, cordialidade, empatia e respeito pelas regras e pela conduta exigida a qualquer condutor.
A vida é curta. Num instante perdemos tudo e somos obrigados a restruturar quem somos e o que temos. Compensará viver o dia-a-dia neste registo de violência absurdo? Onde nos leva?
A um lugar leva-nos de certeza: a compreender que a maioria de nós não está a saber lidar com a raiva que traz dentro de si, com a tristeza, com a frustração, com o desânimo e com os desafios intermináveis que todos enfrentamos diariamente.
Aquilo que, talvez, nem todos saibam é que é possível viver uma vida fora do piloto-automático. É possível gerir o que trazemos dentro sem andar a disparar rudeza em todas as direções. E essa gestão, quando aprendida, pode trazer-nos a leveza e a racionalidade que nem sempre temos quando estamos, simplesmente, a sobreviver.
Não desistas de procurar uma forma de dar nome ao que mora dentro de ti.
De integrar o que não gostas. O que não compreendes e o que gostavas que fosse diferente.
No Domingo da solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, celebramos o Dia Mundial da Juventude. Entre nós, fá-lo-emos na véspera, no próximo sábado, na vila de Gavião, desejando que toda a Diocese congregue sinergias, ajudando a promover tão feliz evento e facilitando a participação dos destinatários. Os jovens representam a esperança e a alegria do mundo e da Igreja. O seu entusiasmo, a sua energia, a sua capacidade criativa, o seu gosto pela vida e pelas coisas da vida, contagiam, estimulam, fazem mexer pessoas e comunidades, são o presente e o futuro. O Papa Francisco pescou o mote da sua Mensagem do Livro da Consolação de Isaías. Daquele contexto em que o profeta anuncia ao sofrido Povo de Deus o regresso do exílio da Babilónia, na esperança de um novo rumo para a sua vida e para a sua história: “Aqueles que esperam no Senhor, caminham sem se cansar” (Is 40,31). Se, naquele tempo, o povo vivia tempos difíceis, também hoje, recorda o Papa, vivemos “tempos marcados por situações dramáticas que geram desespero e nos impedem de olhar para o futuro com espírito sereno: a tragédia da guerra, as injustiças sociais, as desigualdades, a fome, a exploração do ser humano e da criação”. E são os jovens quem paga o preço mais alto desta situação, pois sentem a incerteza do futuro e não vislumbram perspetivas seguras para os seus sonhos, correndo o risco de viverem “sem esperança, prisioneiros do tédio e da melancolia, por vezes arrastados para a ilusão da transgressão e das realidades destrutivas”. Uma vida assim sem sentido, porém, não convém, não interessa, não realiza, empobrece cada vez mais, deixa mais vazio no interior de cada um. Todos aspiramos a uma vida com sentido, e se outra razão não existisse haveria aquela que é a mais fundamental de todas: “fomos criados por Aquele que é infinito e, por isso, em nós habita o desejo de transcendência, a inquietação contínua para a realização de aspirações maiores, para um “algo a mais”. Assim, vamos sentindo a vida como uma peregrinação contínua. Ou, como afirma Francisco, como “uma jornada que nos empurra para além de nós mesmos, um caminho em busca da felicidade”. E, para nós, a vida cristã “é uma peregrinação em direção a Deus, à nossa salvação e à plenitude de todo o bem”. Neste peregrinar, porém, pode surgir o cansaço, é normal. Pode começar-se com alegria e entusiasmo e mais além sentir o cansaço. Diz Francisco que, nalguns casos, “o que provoca ansiedade e cansaço interior são as pressões sociais para atingir determinados padrões de sucesso nos estudos, no trabalho e na vida pessoal. Isto produz tristeza, pois vivemos no afã de um ativismo vazio que nos leva a preencher os nossos dias com mil coisas e, apesar disso, a sentir que nunca conseguimos fazer o suficiente e que nunca estamos à altura. Este cansaço é muitas vezes acompanhado pelo tédio. É o estado de apatia e de insatisfação de quem não se põe a caminho, não decide, não escolhe, nunca arrisca e prefere ficar na sua zona de conforto, fechado em si mesmo, vendo e julgando o mundo por detrás de uma tela, sem nunca “sujar as mãos” com os problemas, com os outros, com a vida”. A solução para o cansaço “não é ficar parado para descansar”. Reclama-se “um repouso mais profundo, o repouso da alma, que muitos procuram e poucos encontram, e que só pode ser encontrado em Cristo”. Descansar como Jesus e em Jesus é um convite que Jesus nos faz: “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). Esse lugar para onde nos podemos retirar, estar com Jesus e sentir Jesus a caminhar connosco é a Eucaristia. Francisco torna presente o que afirmava Carlo Acutis: “a Eucaristia é a autoestrada para o céu”. Ela torna-nos peregrinos da esperança”. E a esperança não engana, não desilude, funda-se na fé, faz saber que a própria tribulação produz a paciência, a paciência a firmeza, a firmeza a esperança que nos leva a vencer “todo o cansaço, toda a crise e toda a ansiedade, dando-nos uma forte motivação para avançar, porque é um dom que recebemos do próprio Deus”. A Mensagem para este Dia Mundial dos Jovens acentua que a caminhada da vida não se pode fazer “como meros turistas, mas como peregrinos”. É um caminho interior que não permite que passemos pelos lugares da vida de forma superficial, sem captar a beleza do que se encontra, sem descobrir o sentido dos caminhos percorridos, mas mergulhando de alma e coração nos lugares que encontra, fazendo-os falar, tornando-os parte da sua busca de felicidade.
D. Antonino Dias - Bispo Diocesano Portalegre-Castelo Branco, 18-11-2024.
A liturgia do 33.º Domingo do Tempo Comum convida-nos a ler a história dos homens numa perspetiva de esperança. Garante-nos que o egoísmo, a violência, a injustiça, o pecado, não têm a “última palavra” na história do mundo e dos homens; a “última palavra” será sempre de Deus, que vai, a seu tempo, mudar a noite do mundo numa aurora de vida sem fim. É com essa certeza que devemos enfrentar a vida e o caminho que temos à nossa frente.
A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos pelo rei selêucida Antíoco IV Epífanes, que Deus se prepara para intervir e para lhes oferecer a salvação. A ação de Deus porá fim ao sofrimento intolerável em que estão e abrir-lhes-á as portas de uma vida nova, de uma vida eterna. Esta esperança deve sustentar os justos na sua aflição e animá-los a permanecerem fiéis a Deus.
A oposição e a incompreensão do “mundo” podem gerar, da nossa parte, uma resposta agressiva e levarem a um corte da nossa relação com o mundo. Será essa a melhor resposta à incompreensão que “o mundo” nos tributa? Poderemos continuar a ser “sal da terra e luz do mundo” se cortarmos as pontes que nos ligam ao mundo? Poderemos continuar a propor o Evangelho ao mundo se, magoados pelas críticas e incompreensões que temos de suportar, nos escondermos atrás dos muros dos nossos templos e nos limitarmos a condenar esse mundo fútil que não nos entende? Talvez o caminho seja continuarmos a afirmar, de forma humilde, mas convicta, os valores em que acreditamos, com a certeza que o nosso testemunho há de interpelar alguém e há de produzir frutos de renovação do mundo e das mentalidades. Como é que lidamos com a hostilidade do mundo?
No Evangelho, Jesus assegura-nos que, num futuro sem data marcada, o mundo velho do egoísmo e do pecado vai cair e que, em seu lugar, Deus vai fazer surgir um mundo novo, de vida e de felicidade sem fim. Aos seus discípulos, Jesus pede que vivam atentos aos sinais que anunciam essa nova realidade; e que, com paciência e confiança, se disponham a acolher e a concretizar os projetos, os apelos e os desafios de Deus.
Há uma realidade incontornável, que nunca podemos olvidar: apesar da ação de Deus e dos nossos próprios esforços para que o nosso mundo seja, a cada instante, transformado e humanizado, o mundo novo com que sonhamos e que está no projeto de Deus nunca será uma realidade plena nesta terra: a nossa caminhada neste mundo será sempre marcada pela nossa finitude, pelos nossos limites, pela nossa imperfeição, pelo nosso egoísmo, pelas nossas opções discutíveis. O mundo novo sonhado por Deus é uma realidade escatológica, cuja plenitude só acontecerá depois de Cristo, o Senhor, ter destruído definitivamente o mal que nos torna escravos. Estamos conscientes disso? Temos consciência de que caminhamos rodeados de debilidade e de finitude, mas que isso não pode enfraquecer o nosso compromisso, os nossos esforços, a nossa alegria, a nossa confiança em Deus?
Para Deus, não há passado nem futuro, há um eterno presente. Quando Jesus fala do seu regresso, coloca-o no hoje da sua Igreja. Eis porque, quando escreve o seu Evangelho, Marcos dirige-se a uma comunidade provada pelas perseguições, sem dúvida tentada pelo desespero, pela dúvida. Trata-se, pois, de redizer que Cristo, vitorioso da morte na manhã de Páscoa, é sempre vitorioso sobre todas as forças do mal. O seu regresso será, então, a manifestação do seu esplendor e do seu poder amoroso sobre as forças da morte. Para reavivar a sua esperança, os crentes são convidados a perscrutar os sinais que fazem ver que o Senhor voltará. A esperança dos cristãos manifesta-se em cada Eucaristia, quando afirmam que Cristo veio, vem e virá.
A segunda leitura lembra que Jesus veio ao mundo para concretizar o projeto de Deus: libertar o homem do pecado e de inseri-lo numa dinâmica de vida eterna. Com a sua vida e com o seu testemunho, Cristo ensinou-nos a vencer o egoísmo e o pecado e a fazer da vida um dom de amor a Deus e aos irmãos. É esse o caminho do mundo novo, o caminho que conduz à vida definitiva.
Jesus, o Filho amado de Deus, veio ao mundo para concretizar o projeto salvador de Deus: libertar-nos da escravidão do pecado e inserir-nos numa dinâmica de vida eterna. Com a sua vida, com os seus gestos, com as suas palavras, Ele ensinou-nos a vencer o egoísmo e a fazer da nossa vida um dom de amor a Deus e aos irmãos. No dia em que aderimos a Jesus – o dia do nosso Batismo –, renunciamos ao pecado, acolhemos o projeto de vida que Jesus nos apresentou e passámos a integrar a comunidade dos filhos de Deus. Trata-se de um compromisso sério e exigente, que necessita de ser continuamente renovado. O nosso compromisso com Jesus e com a sua proposta de vida exige que, como Ele, vivamos na escuta de Deus e na obediência ao seu projeto; exige que vivamos no amor, na partilha, no serviço, se necessário até ao dom total da vida; exige que lutemos, sem desanimar, contra tudo aquilo que rouba a vida do homem e o impede de chegar à vida plena; exige que sejamos, no meio do mundo, testemunhas de uma dinâmica nova – a dinâmica do amor. A nossa vida tem sido coerente com esse compromisso?
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Que não sejamos pegos de surpresa! O que mais nos interessa não é saber quando, onde ou como será nosso fim, mas qual será nosso estado de alma naquela hora! Nosso maior empenho será em viver de tal modo que possamos ser inscritos no livro da vida. Da Vida eterna! Cristo nos deu essa possibilidade de Vida eterna, morrendo por nós e nos santificando pela Eucaristia, perdoando nossos pecados, tornando-nos discípulos missionários seus.
Recadinho
O que é necessário para viver como justos? Sou paciente? Procuro transmitir alegria? Tenho medo do fim desta vida? Quando me examino sobre os caminhos e as obras que realizo?
Agarra-te ao que realmente queres para ti. Porque isso é aquilo que já és. Não (te) fujas. A vida depende da forma como a olhas, como a abraças. Da forma como te entregas.
Quando percebes que és tu o único canal que te liga a ti mesmo/a, percebes que o sentido da vida és tu em tudo o que constróis, dentro e fora de ti.
A responsabilidade é tua, a força é tua, a coragem também. E sabe-lo é tão bom! Porque é apenas de ti que depende recomeçar, reajustar, libertar...
Mesmo nas "arenas da vida"... são nesses momentos preciosos que aprendemos a abrir caminho, assumimos as nossas histórias e escrevemos os finais com a força da coragem.
Se for preciso recomeça,todos os dias, pois a vida pertence-te. É um dom, uma dádiva, um presente. As três numa só palavra: Amor.
E... Nunca estamos sozinhos. Esta é a certeza da experiência.
O Papa Francisco publicou uma nova Encíclica, desta vez sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Um amor que nos precede e espera sem nos colocar qualquer exigência para nos amar e oferecer a sua amizade. Será no encontro com o amor de Jesus que nos tornaremos “capazes de tecer laços fraternos, de reconhecer a dignidade de cada ser humano e de cuidar juntos da nossa casa comum” Afirmando que é no coração que cada pessoa encontra “a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas”, Francisco refere que hoje “tudo se compra e se paga, e parece que o próprio sentido da dignidade depende das coisas que se podem obter com o poder do dinheiro. Somos instigados a acumular, a consumir e a distrairmo-nos, aprisionados por um sistema degradante que não nos permite olhar para além das nossas necessidades imediatas e mesquinhas. O amor de Cristo está fora desta engrenagem perversa e só Ele pode libertar-nos desta febre onde já não há lugar para o amor gratuito. Ele é capaz de dar coração a esta terra e reinventar o amor lá onde pensamos que a capacidade de amor esteja morta para sempre”. Porque só o amor tornará possível uma nova humanidade, também a Igreja precisa desse amor gratuito “para não substituir o amor de Cristo por estruturas ultrapassadas, obsessões de outros tempos, adoração da própria mentalidade, fanatismos de todo o género que acabam por ocupar o lugar daquele amor gratuito de Deus que liberta, vivifica, alegra o coração e alimenta as comunidades. Da ferida do lado de Cristo continua a correr aquele rio que nunca se esgota, que não passa, que se oferece sempre de novo a quem quer amar. Só seu amor tornará possível uma nova humanidade”. (Procure na net “Dilexit nos” e leia este belo documento)
Nada é para sempre neste mundo, mas, no fundo de cada coração, há uma certeza da eternidade. Quem ama sente-a como tão verdadeira quanto a verdade da própria existência.
Não sou da terra. Vivo e percorro o meu caminho aqui, mas estou de passagem. Tal como nenhum de nós deu a vida a si mesmo, também não há quem possa decidir ficar neste mundo.
Para onde vou? Bem, eu quero ir para o céu. O caminho é duro porque implica amar, lutando contra uma das maiores forças que parecem naturais em nós: o egoísmo. O caminho implica sofrer e ser atacado por dúvidas, muitas vezes.
O valor de alguém mede-se pela forma como enfrenta um obstáculo. Quando algo aparece e nos obriga a deitar fora os planos e a sonhar outros sonhos, se quisermos sair de um dos muitos pesadelos ilógicos e injustos. Quantos homens se fizeram ricos através da forma como aceitaram as suas misérias?
Para voar, é preciso que nos aperfeiçoemos; neste caso, isso não implica acrescentar, antes sim, libertar-se do que está a mais. Custa, porque tantas vezes somos chamados a acreditar no que não faz sentido. Se sou amado, porque me sinto só? Por que razão tenho de ser exposto a tanta dor? E até na agonia me é pedido que a enfrente com alegria?
Que eu saiba dar tudo o que posso. Que eu leve muitos a provar o sabor de um pão partilhado.
Preciso de me esvaziar de mim. Confiar e chegar a compreender que a felicidade não é um destino, mas uma recompensa… e que só o amor dá sentido à vida… e à morte.
Vivemos dias de aflição à distância. Contemplamos com horror o que aconteceu em Valência e o nível de destruição sem precedentes a que o nosso país vizinho esteve (e ainda está) sujeito.
Quando este tipo de eventos acontece há sempre um certo grau de incredulidade que nos assalta e, ao mesmo tempo, como que um alívio por não termos sido nós. No entanto, desta vez, é demasiado perto e demasiado evidente para ser possível fingir que não aconteceu.
São cada vez mais estonteantes (e cada vez mais reais) as consequências das ações que a humanidade tem tido perante os que lhe são próximos e perante o planeta a que chamamos casa. Claro que quem paga o preço mais alto nunca são aqueles que tiveram a culpa maior. Mas já todos percebemos que o que afeta um ser humano acabará por afetar todos os outros.
É preciso olhar com compaixão para todos os que foram obrigados a assumir um rosto de sofrimento enquanto a banalidade das suas vidas foi interrompida abruptamente. E é profundamente emocionante ver quantos se têm juntado para ajudar numa missão de reconstrução a todos os níveis que levará mais tempo do que todos gostaríamos.
Nestes momentos de caos e de dificuldade ainda nos surpreende ver o quanto conseguimos colocar a nossa humanidade ao serviço do outro, o quanto é valioso o esforço comum em prol do bem de todos e o quanto ainda é possível sentir orgulho daquilo que somos como pessoas.
Que não nos falte a humildade de compreender esta dor que atravessou Valência e que não nos falte a coragem para ajudar naquilo que estiver ao nosso alcance. Caso não nos seja possível ajudar de forma presente que possamos colocar o nosso coração e a nossa oração na vida de cada um dos que, neste momento, sofrem ainda.
E ficamos todos com o recado de que temos de fazer mais e mais, não é? Eu dou por mim a refletir nisso e a questionar se, nesta enorme barca, todos damos um pouco mais.
Em Igreja sentimos que falta vocações para quase tudo e uns desdobram-se em milhentas tarefas enquanto outros dão o que lhes apetece: nem mais nem menos!
No trabalho é igual, quando nos envolvem na resolução de tarefas, encolhemos os ombros para que não sejamos chamados a capítulo caso corra mal.
Até podia dizer mais qualquer coisa, até podia dar mais uma ajudinha, até podia mas às vezes, simplesmente não nos sentimos capazes. É que nem sempre estamos no sítio certo, rodeados de pessoas certas que nos inspirem a dar mais. E isso também é importante perceber, porque nem sempre, o que temos para dar encontra um recetor capaz de transformar a nossa dádiva em algo poderoso.
Outras vezes, escudamo-nos na falta de tempo que cada vez mais significa ”falta de vontade” e desperdiçamos oportunidades para aprender mais, para poder também ensinar melhor os outros. Ficamo-nos pelo que sabemos, damos, e isso nos basta.
Somos exímios em desculpas para justificar o que damos porque na verdade sentimos que damos sempre pouco.
Mas, quando Jesus nos conta a parábola da viúva que deu esmola, percebemos que nada sabemos sobre a quantia que ela deu, não sabemos se foi muito ou pouco, apenas sabemos que deu tudo o que tinha e isso bastou!
Por isso a questão a fazer é:
E tu amiga será que sabes tudo o que tens para dar?
A liturgia do 32.º Domingo do Tempo Comum fala-nos do verdadeiro culto, do culto que agrada a Deus. Mais do que rituais litúrgicos solenes e majestosos, Deus espera de nós uma atitude permanente de entrega nas suas mãos, de disponibilidade para os seus projetos, de escuta atenta das suas indicações, de generosidade, de partilha, de solidariedade para com os nossos irmãos.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de uma viúva pobre de Sarepta que, apesar da sua pobreza e necessidade, ouviu o apelo de Deus e repartiu os poucos alimentos que lhe restavam com o profeta Elias. A história dessa mulher garante-nos que a generosidade, a partilha e a solidariedade não empobrecem, mas são geradoras de vida abundante.
Esta história convida-nos a não nos fecharmos em esquemas egoístas de acumulação e de açambarcamento, esquecendo os nossos irmãos necessitados. Garante-nos que, quando repartimos, com generosidade e amor, aquilo que Deus colocou à nossa disposição, não ficamos mais pobres; os bens repartidos multiplicam-se e tornam-se fonte de vida e de bênção para nós e para todos aqueles que deles beneficiam. O que significam para nós os bens que Deus pôs à nossa disposição? Um “capital privado” exclusivamente ao nosso serviço, ou bens que Deus me encarregou de administrar e que pertencem a todos os outros filhos e filhas de Deus? O que dirige a minha vida é a preocupação egoísta da posse dos bens, ou é a generosidade e o amor?
O Evangelho convida-nos a ver, pelos olhos de Jesus, duas formas diferentes de “dar culto” a Deus. De um lado estão os “escribas”, homens-modelo de uma religião solene e formal, mas também vazia, hipócrita, teatral, fomentadora da exploração dos mais pobres, usada para fins egoístas de promoção pessoal; do outro lado está uma viúva pobre e humilde, mas que tem um coração generoso, que confia plenamente em Deus, que aceita viver num despojamento total de si própria para “dar tudo” a Deus. Jesus propõe-na aos discípulos que estão com Ele no átrio do templo como modelo do culto que devem prestar a Deus.
Como nos relacionamos com Deus? O que devemos fazer para nos encontrarmos com Ele? Como respondemos ao seu amor e ao seu cuidado de Pai? Que é que Deus espera de nós? Jesus tinha, sobre isto, ideias bastante claras. Ele estava plenamente convicto de que não se chega ao encontro com Deus através de ritos externos mais ou menos solenes, ou de atos cultuais cuidadosamente encenados mas que não passam de atos formais determinados pelo calendário litúrgico… Jesus achava que a resposta do crente a Deus, a resposta que agrada a Deus e que Deus espera, passa por gestos simples e generosos que expressem a doação total da própria vida, a entrega confiada nas mãos de Deus, a renúncia ao próprio critério para acolher os desafios e indicações de Deus, a obediência incondicional a Deus. O verdadeiro crente é aquele que, no silêncio e na simplicidade dos gestos mais banais, com um coração desprendido e generoso, coloca toda a sua existência nas mãos de Deus. Qual é a nossa resposta ao Deus que nos ama com cuidados de Pai? A nossa “religião” é uma “religião” de gestos externos e de rituais balofos, ou é uma “religião” de escuta de Deus e de obediência incondicional à sua vontade?
A segunda leitura oferece-nos o exemplo de Cristo, o sumo-sacerdote perfeito. Cumprindo o projeto do Pai, Ele deu aquilo que tinha de mais precioso: a sua própria vida. Mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o dom perfeito que Deus quer e espera de cada um dos seus filhos: a entrega de nós próprios para que o seu projeto para o mundo e para o homem se concretize.
A primeira leitura e o Evangelho deste domingo tocam a temática do desapego, da partilha, da capacidade para “dar tudo”. Ora Cristo, com a entrega total da sua vida a Deus e aos homens, realizou plenamente esta dimensão. Ele “deu tudo”, até à última gota de sangue. Não se limitou a partilhar alguns bens perecíveis, mas deu aquilo que tinha de mais precioso: a sua própria vida. Ele mostrou-nos, com o seu sacrifício, qual é o dom perfeito que Deus quer e espera de cada um dos seus filhos. Mais do que solenes rituais litúrgicos, orações prolongadas e perfeitas, ou ofertas em dinheiro para os projetos da Igreja, Deus espera de nós o dom da nossa vida, a entrega de nós próprios para que o seu projeto para o mundo e para o homem se concretize. Limitamo-nos a dar a Deus algumas “migalhas” que nos sobram, alguns minutos do nosso dia, ou somos capazes de “dar tudo”, de colocar toda a nossa existência ao serviço do projeto de Deus?
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A quem muito foi dado, muito também Deus exigirá!
Jesus se dirige aos economicamente bem.
Lembra-os que não podem simplesmente apoiar sua espiritualidade nas obras.
O ato exterior, quando fácil, pouco adianta.
Ele não quer nossas sobras, mas que, generosamente e de modo responsável, partilhemos nossos bens
Recadinho
Em que consiste a generosidade? Você acha que há muita hipocrisia na sociedade em geral? É fácil ser desapegado dos bens deste mundo? Conheço alguém que pode ser classificado como especializado em atender aos pobres? Há muita hipocrisia religiosa?
Deus Pai, amigo dos que procuram, ensina-nos a levantar os olhos e a ver que rompe já a aurora de um novo tempo de esperança.
Senhor Jesus, companheiro dos que se interrogam, faz-nos acolher a visitação da Tua voz que ecoa nas perguntas que guardamos e nos convoca para o serviço da Tua Igreja.
Espírito Santo, fogo dos que se incendeiam com sede da vida com que nos insuflas e confirmas, inspira-nos a responder generosamente aos apelos que nos despertam para a missão.
Que, com Maria, a discípula fiel, saibamos sempre o que podemos esperar, preferindo responder à voz que chama com disponibilidade, generosidade e confiança. Amen.
Não é só uma questão artística, pois a vida é também uma arte. A arte de ver o que realmente traz cor aos dias e saber que a preto e branco também se vê bem.
O que importa mesmo é como te encontras na tela da vida. Como e onde?Não utilizamos todos as mesmas cores. Não vemos todos da mesma forma. Mas todos somos pintores.
É interessante podermos colocar-nos em perspetiva. Olhar de fora, imaginarmos a nossa vida num quadro. O que gostarias de ver pintado? O que gostarias de pintar?
Estamos a tempo, sempre a tempo de nos abrirmos à experiência. Sem medo de olhar. Honrando toda a nossa história. As cores, todas as cores. A leveza ou a grossura dos traços. Umas vezes mais intensos, outras vezes mais suaves.
Penso na importância dos espaços em branco. Da curiosidade, do novo. De abrir espaço à criação. Construir com um olhar; onde tudo é possível e a leveza é trazida pelo amor da vida em si mesma.
De abrirmos o coração ao que vem e mesmo com a mão trémula deixarmos emergir a pintura mais bonita de cada dia.
Nem sempre é fácil...às vezes os espaços em branco ficam apenas assim, em branco. Mas também é nesse vazio que nos encontramos. Que aprofundamos o que somos. É onde podemos expressar a nossa existência. Cada um com os seus traços.
"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta", Carl Jung. Gosto particularmente desta frase, pois acredito que tudo se complementa.
Olho para dentro e pintaremos os sonhos, mais bonitos, na tela da vida.
Muito se tem falado sobre prolongar a vida e ambas temos pensado muito sobre o avançar da idade daqueles que nos são mais próximos. Queremos que eles vivam muito, mas também queremos que vivam bem e sintam que a vida faz sentido e que a sua presença continua a ser VIDA para nós. Admiro a ternura e dedicação daqueles que dão a sua vida para garantir que o fim da vida de outros seja digna dos anos que lhes pesam no corpo. Mas deve ser cansativo! O cuidador abdica da sua vida para ser a Vida de outros na maioria das vezes nem se queixam, apenas aceitam. Um dia fomos filhos e precisamos que cuidassem de nós, mas haverá um dia em que seremos nós a cuidar dos nossos pais e a providenciar que nada lhes falte - que assim seja!. Mas estes são os sortudos pois existem outros tantos que são deixados sem nome e às vezes sem dignidade, à espera que chegue a sua hora e à mercê da compaixão alheia.
Mas acho que pior do que isso são aqueles que desistem de viver, aqueles que, após uma vida longa, se recusam a aceitar as perdas. As perdas dos seus pares, a perda das capacidades físicas, das mentais e começam a pensar: que estou aqui a fazer? Estes podem não ser um fardo físico mas são uma enorme dificuldade para quem cuida pois por mais que se dê o necessário, sente-se que o outro simplesmente desistiu e apenas espera o inevitável. Será que eu vou ser assim?
Mal comparado, a vida pode ser encarada como uma vela que para ser útil tem de estar acesa e a cera, que a sustenta, é consumida na medida que a chama ilumina o espaço. Assim, também a vida se vai consumindo entre canseiras, alegrias e desafios. Por vezes, sofremos mazelas e desgastes que são difíceis de superar e que nos deixam marcas que nos fazem desistir um pouco e ficamos sem vontade de prolongar a vida. Será como uma chama que se vê confrontada com ventanias que a fazem fraquejar. Tal como a vela, a vida desgasta-nos, consome-nos porque isto de ser LUZ dá muito trabalho mas é o que dá razão à nossa existência. Viver para sempre nem sempre significa viver bem, por isso escolho: Viver bem!
Assim sendo, querida amiga, sugiro que vivamos com intensidade o que nos surge no caminho e preparar para um dia, quando a nossa “cera” for mais curta, e os ventos mais agrestes, termos a capacidade de aceitar o momento tal qual ele é, e continuar a ser Luz na vida dos outros, porque o resto… está nas mãos de Deus.
Sonhadores somos todos. Poucos são os que se levantam cedo para ir trabalhar pela concretização das suas aspirações. A maior parte das pessoas fica-se pela vontade de ter vontade, poucos são os que avançam e assumem, desde o primeiro passo, que vale a pena sacrificar tudo quanto é o preço daquilo que querem conquistar.
Os sonhadores comuns idealizam tanto que aquilo que desejam lhes chegará sem terem de abdicar de nada, como se o mundo lhes devesse isso e quisesse pagar-lhes a pronto! Mas a verdade é que, ainda que alguns até o possam merecer, a vida não entrega nada a ninguém sem uma contrapartida.
São tantos os esforços e os sacrifícios que é necessário despender a fim de concretizar o que queremos, que, quando o conseguimos, isso não nos deixa eufóricos, mas apenas aliviados, por ter terminado a guerra e por ela não ter sido em vão!
São muitos os tropeços, quedas e fracassos de que temos de nos reerguer… Talvez seja verdade que ninguém começa do início, porque há sempre um fim (qualquer) anterior. Começar é, na verdade, continuar depois de algo ter acabado.
As aventuras começam com o fim de qualquer coisa, assim como as tragédias.
Todos temos em nós uma alma que nos pede para que sejamos mais. Que sejamos maiores. Mas há quem desista cedo, há quem se venda por pouco, ainda que se considere muito forte e valioso, a verdade é que o nosso valor depende mais do que formos capazes de lutar por amor. Tornando real o que era apenas possível. Por vezes, era até impossível.
Levanta-te e luta pelo que acreditas que mereces. Hás de cair muitas vezes. Muitas. Hás de sofrer de forma injusta.
Mas cada fim é um começo e feliz não é quem o merece, mas quem fez o que era preciso.
O concelho de Arronches recebe, a 9 e 10 de Novembro, o Festival Terras sem Sombra (TSS) num programa que se reparte em três momentos, dedicados ao património local, à grande música e à salvaguarda da biodiversidade.
09 DE NOVEMBRO | 15H00 | “AO ENCONTRO DAS RAÍZES: O CONVENTO E A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA LUZ” Tido como “a menina dos olhos” dos arronchenses, o convento habita, literal e emocionalmente, o coração da vila alentejana. Antiga casa do século XVI, pertencente à Ordem dos Agostinhos Descalços, o imóvel apresenta uma arquitectura despojada, marcada pela sobriedade das linhas e pela utilização de materiais locais.
09 DE NOVEMBRO | 21H30 | “NO REGRESSO DE MAGALHÃES: DIÁLOGOS INÉDITOS ENTRE AS FILIPINAS E A EUROPA” O concerto do grupo coral filipino Sing Philippines Youth Choir, sob a direcção musical de Mark Anthony Carpio leva ao palco na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção um elenco com mais de 40 intérpretes numa viagem musical de cinco séculos. Uma noite de grande música que se completa com a inusitada colaboração de um grupo de tocadores locais, Pedrinhas de Arronches, que fazem dos seixos encontrados nas margens da ribeira local o instrumento para um emocional repertório.
10 DE NOVEMBRO | 09H30 | “FONTES VITÆ: A RIBEIRA DE ARRONCHES E O RIO CAIA” A culminar a agenda do fim-de-semana do TSS, a actividade de Salvaguarda da Biodiversidade propõe a visita “Fontes Vitæ: A Ribeira de Arronches e o Rio Caia”. A ribeira de Arronches é, há séculos, fonte de água para a população, irrigação agrícola e um valioso suporte à fauna e flora locais. Um curso de água que abriga um importante ecossistema.
Todas as atividades são de entrada livre e gratuita.
Querida amiga, nunca sentiste uma certa “vergonha” por festejar? Parece piada mas não é. Às vezes até tenho medo de dizer que estou feliz, ou que vou celebrar algo banal, para não ser olhada de lado como quem: olha esta!
Dia de pais, dia da mãe, aniversários de casados, namoro, dia da mulher… devem ser todos celebrados. Eu sei que a vertente comercial apoderou-se disto e damos por nós mais preocupados em “comprar” algo do que a “fazer” algo diferente.
Festejar para quê? Isto é tudo negócio! Pois bem, que seja! Ainda bem que há alguém que nos lembra que temos de festejar e que nos inventa pretextos para isso. Abençoados sejam, quem nos faz rir!
Abençoados, quem nos põe a pensar qual o jantar especial que vamos fazer, que bebida especial vamos pôr na mesa. Que bom que é termos um pretexto para comer na sala, pôr copos de cristal e guardanapos de pano, música de fundo. E que tal umas entradinhas, e uma sobremesa especial? E que tal um jantar mais demorado? Sim, enquanto estamos à mesa conversamos, saboreamos a companhia uns dos outros e também desabafamos. E quando nos contornamos, um jantar que deveria demorar 15m, prolonga-se por horas.
Às vezes, apenas precisamos de um pretexto para quebrar a rotina de uma semana aparentemente normal. Creio não ser preciso muito, apenas vontade!
A liturgia do 31.º Domingo do Tempo Comum convida-nos a abrir o coração ao amor. O amor liberta-nos dos círculos fechados que nos impedem de crescer e de construir uma vida com sentido; o amor permite-nos viver em comunhão com Deus e com os irmãos que a vida coloca ao nosso lado.
A primeira leitura apresenta-nos o início do “Shema’ Israel”, a grande afirmação de fé que todo o israelita piedoso fazia duas vezes por dia. Lembrava que Deus era o centro fundamental à volta do qual se articulava e construía toda a vida do crente; e convidava o israelita fiel a responder à ação salvadora desse Deus com uma entrega total, uma dedicação completa, um amor sem limites e sem condições.“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” – pede Moisés ao Povo de Deus. Como é que deve expressar-se, em termos práticos, esse amor a Deus? É através de declarações solenes e ocas de boas intenções? É através de fórmulas fixas de oração que papagueamos de cor? É através de solenes ritos litúrgicos, que nos enchem os olhos mas não nos tocam o coração? Não deverá antes ser na entrega total nas mãos de Deus, na escuta atenta da sua vontade, no cumprimento dos seus mandamentos e preceitos, no testemunho do amor junto dos nossos irmãos, no compromisso com a construção de um mundo que esteja de acordo com o projeto de Deus?
No Evangelho, Jesus define o princípio que deve orientar a vida e o compromisso dos seus discípulos: o amor. Esse princípio, raiz fundamental da existência cristã, concretiza-se em duas vertentes: como amor a Deus e como amor ao próximo. Quem ama Deus escuta as suas palavras, vive de acordo com as suas indicações, procura concretizar o seu projeto para o mundo e para os homens; e ao mesmo tempo, contagiado por Deus, acolhe e cuida, com solicitude e amor, dos irmãos que encontra no caminho. Essa é, segundo Jesus, a única forma de dar sentido à própria existência.Qual é, para nós, o elemento fundamental da nossa experiência de fé? Que lugar ocupa o amor – o amor a Deus e o amor ao próximo – no edifício da nossa vida religiosa? Por vezes não tenderemos a dar demasiada importância a elementos que não têm grande significado (as tradições religiosas que herdamos dos nossos antepassados, a devoção que nos inspira determinada imagem religiosa, as festas com um leve verniz religioso mas que são pretexto para manifestações pouco cristãs, os rituais pomposos e muitas vezes vazios de significado, as questões disciplinares laterais, as honrarias pouco evangélicas, os títulos “religiosos” que nada significam…), esquecendo o essencial, negligenciando o mandamento maior?
Na segunda leitura, um catequista cristão fala de Cristo como o sumo-sacerdote perfeito, que ofereceu no altar da cruz o sacrifício da sua própria vida. Com a sua entrega, Cristo cumpriu o plano do Pai e mostrou o seu amor a Deus; apresentando-se diante de Deus com esse dom, tornou-se intercessor dos seus irmãos e mostrou também o seu amor aos homens.Cristo é, efetivamente, o sumo-sacerdote que está junto do Pai e que intercede continuamente por nós, como repete até ao infinito o autor da Carta aos Hebreus. A consciência desse facto deve encher o nosso coração de paz, de esperança e de confiança: se Cristo intercede por nós, podemos encarar a vida de forma serena, com a consciência de que as nossas debilidades e fragilidades nunca nos afastarão, de forma definitiva, da comunhão com Deus e da vida eterna. Essa certeza é, para nós, fonte de paz, de harmonia e de esperança?