domingo, 4 de outubro de 2026

BEBE UM COPITO, TRAZ-ME O CAPOTE E OS LIVROS...


“Não continues a beber só água, mas toma também um pouco de vinho, por causa do estômago e das tuas frequentes indisposições” (1Tim 5, 23). “Quando vieres, traz o manto que deixei em Tróade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos” (2Tim 4,13).
Ora aí está mais um bom conselho, um conselho de sábio para um amigo de coração! Sobretudo agora que se aproxima o inverno, há que libertar o estômago dos maus humores, nada de zurrapa ou de água inquinada. É preciso precaver-se contra o frio que dói nos ossos e ter livros para ler. Certo é que beber um copito, já não é preciso aconselhar os portugueses a fazê-lo. Quem cuida desses rácios e rankings vai-nos dizendo que somos bons alunos e muitíssimo cumpridores. Ultrapassamos, muito para além dos maiores fãs, a medida profilaxia e medicinal. Quanto ao capote, costuma dizer-se que Deus dá o frio conforme a roupa, e que ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo! Eu, porém, que sou friorento, acho que é um pensamento demasiado otimista e arriscado. Só confirma o ditado, que diz: fia-te na Virgem e não corras! Muita criança, quando cai, amolga o nariz. Muita gente, por causa do frio, mesmo atafulhada de roupa, tirita demasiado, parte cedo e muito contrariada. Não porque Deus não esteja atento, mas porque, primeiro, os homens devem fazer a sua parte. Em vez de se engalfinharem em guerras só para saber quem é mais forte e ter mais uma courela de terreno, deviam sentir o dever de respeitar, amar e cuidar do próximo. Se, quanto ao álcool, os portugueses são atletas olímpicos, bem treinados nas escolas de Baco, quantos aos livros, por vezes ouvimos dizer que os portugueses fogem deles como o diabo da cruz. No entanto, em setembro findo, li que a leitura atingiu o valor mais elevado dos últimos três anos e o mercado do livro cresceu, apesar de o livro estar a perder espaço. Cresce a leitura, mas em livros digitais, gratuitos ou não. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), se manifesta apreço pelo crescimento de leitores, sobretudo entre os jovens, também manifesta alguma preocupação quanto à sustentabilidade do setor. Pudera!...
Também, por razões que se atribuem ao progresso e aos seus cireneus, hoje, ainda haverá quem o faça, sobretudo oficial ou protocolarmente, mas escrever cartas privadas e, por elas, dar conselhos como São Paulo, já não haverá muito quem o faça. Deve ser coisa rara! Acho eu que a correspondência em papel sumiu. Aquela paciência, na alegre esperança de receber um aerograma ou uma carta, quando o carteiro tocava a corneta à porta do destinatário, foi chão que deu uvas. O tempo tinha sempre tempo, a paciência era muitíssimo paciente. A esperança de receber não apressava a pressa, tornava a alegria da receção muito maior e partilhada: “Ó vizinha, o teu rapaz tem escrito?”. - “Tem, tem. Ainda recebi uma carta dele há pouco, talvez haja um ou dois meses”. Hoje a pressa apressou-se, a paciência deixou de ser paciente, a arte epistolar está com os pés para a cova, a carta por correio deu lugar à digitalização que, se não se cuida, logo se evapora ou esquece, não dá tempo para ser saboreada, logo logo vem outra a atropelar aquela e já outra ali vem.
Se a correspondência privada das maiores figuras da literatura nacional estão publicadas e nos enriquecem, ver isso acontecer no futuro será bem mais difícil. Esse género literário sempre foi muito utilizado, já era incentivado nas escolas romanas e gregas. Era a maneira mais comum de divulgar ideias, de orientar as comunidades, de trocar informações. São Paulo escrevia às suas comunidades na qualidade de apóstolo, não de escritor. No entanto, nas cartas que se conservam, deixou-nos um legado literário de apreciar. Em princípio, as suas epístolas eram lidas na reunião da comunidade a que se dirigiam. Quem as recebia devia dá-las a conhecer às comunidades vizinhas, deviam trocá-las entre si. Em Colossenses 4,16, por exemplo, lemos: “quando esta carta tiver sido lida entre vós, fazei com que seja lida também na igreja de Laodiceia. Lede também a que receberdes da igreja de Laodiceia”. Algumas possuem carácter público, oficial, muitas vezes visavam resolver problemas.
Deus também escreveu uma Carta de Amor à Humanidade. Aí, revela a sua vontade, a sua aliança e o seu afeto por cada pessoa. Essa Carta mantém-se atual, é atemporal, continua a orientar povos de todos as épocas e culturas. É “adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa” (2Tim 3,16). São Paulo constatou que muitos falsificavam a Palavra de Deus exarada nessa Carta de Amor que Deus escreveu a todas as pessoas de boa vontade. A par, anunciou que as comunidades cristãs devem ser o testemunho vivo de fé, devem testemunhar que são uma Carta de Cristo, “escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações” (2Cor 3, 3).
Então, para fazer jus ao título deste artigo, beba lá um copito, caro leitor, para estar sempre de bom humor. Se possível, de meio copo para baixo, de preferência Alvarinho. Agasalhe-se, e porque não se pode ser cristão sem Cristo e estamos a começar o mês das Missões, aconselho a leitura dos Atos dos Apóstolos, na certeza de que vai gostar e voltará a ler com a preocupação de São Paulo: “Ai de mim se não evangelizar”.

D. Antonino Dias
Caminha, 03-10-2026

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