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sábado, 31 de janeiro de 2026

Habitar as palavras que nos dão vida

 


Habitar as palavras que nos dão vida
As palavras que dizemos a nós próprios não são neutras. Criam-nos. Ou desfazem-nos.
Quando nos repetimos em falta, em medo, em desvalor, nada cresce dentro de nós. Não há raiz que aguente uma linguagem que só fere. Falar mal de nós a nós próprios não nos protege — enfraquece-nos.
Há palavras, porém, que nos levantam.
“Eu sou capaz.”
“Eu crio a minha própria realidade.”
“Eu escolho ser feliz hoje.”
Ditas em voz baixa ou em silêncio, estas palavras fazem bem. Não porque neguem a dor, mas porque a atravessam com sentido. Dão-nos força. Direção. Horizonte.
Somos feitos de palavras: as que escutámos, as que dissemos, as que escrevemos e também as que calámos. Algumas tornaram-se abrigo; outras, ferida. Há palavras que nos convertem — viram-nos para a luz. Mudam o olhar, a direção, a forma como entendemos a vida.
Não há uma vida profana e outra sagrada. Toda a vida é sagrada. Cada gesto, cada escolha, cada caminho pode ser lugar de Deus, se não recusarmos nenhuma fonte: a ciência, a arte, a música, a beleza, a natureza, a ternura humana. Tudo nasce Nele e para Ele regressa. Como escreve Maurice Zundel, “toda a vida é chamada a ser consagrada”.
E quando tomamos consciência de que há em nós um desejo de mais — de Deus, de um além, de um mundo que ultrapassa o nosso — começamos a reconciliar-nos com a realidade simples e, tantas vezes, banal da nossa vida. É aí que tudo começa a fazer sentido, como lembra Anselm Grün.
Escolher bem as palavras que nos habitam é um ato espiritual.
É um gesto de cuidado.
É um modo de nos recriarmos, todos os dias.


Padre João Torres