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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Lembro-me de ti...

 


Lembro-me de ti...

Hoje a saudade aperta-me
e o teu rosto toma conta de mim.
Sinto tanto a tua falta!
Falta de tudo o que há de mais belo em ti!
Às vezes dou comigo a chamar por ti
como se não tivesses ido embora...
Amavas genuinamente a vida,
protegias-me acima de tudo e de todos.
O teu abraço era tão bom
era o meu porto seguro...
e o teu olhar dizia-me que estarias sempre ao lado
mesmo quando te procuro e não te vejo...
Às vezes dou comigo a rir-me do teu riso,
a lembrar-me das tuas histórias
a sentar-me no teu lugar
a comer o teu prato favorito
a cheirar a tua roupa...
faz-me tanto bem!
Lembrar-me de ti aproxima-me do paraíso
onde acredito que estás...
A morte foi a porta através da qual regressaste
a casa que sempre foi a tua...
Por vontade de Deus Somos imensamente mais do que aparentamos,
mais do que pensamos que somos.
Somos loucamente eternos.
Por isso, acredito que te voltarei a ver!
Hoje digo-te «até amanhã», ou «até já»,
ou melhor «Adeus»!
Sim, «a-Deus», porque é no seio de Deus,
que havemos de ser e nos havemos de encontrar!

Padre João Torres

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A saudade é uma dor do amor




O amor que um dia foi verdade nunca desaparece. Pode afundar-se dentro de um coração ao ponto de já ninguém, nem o próprio, o ver. Mas não morre, porque o amor não morre, nunca. Bastará muito pouco para que se manifeste e se revele vivo, apesar de tudo.

É dolorosíssimo aceitar que já não há neste mundo o que há, tão vivo, em nós. O tempo, que quase tudo muda, não muda o amor. O que fica então? A saudade, que congrega três dimensões distintas:

– Uma alegria pura e uma dor profunda por sermos senhores de viver algo raro;

– A vontade imensa de voltar para junto da fonte de onde brotou a razão da nossa esperança;

– A certeza amarga de que é impossível voltar a viver, mas que, apesar de tudo, ainda tudo é possível.

Alguns de nós deixam-se ficar numa destas facetas, outros vivem uma a uma sucessivamente, outros ainda não sabem sequer identificar aquilo que o amor lhes pede agora, depois de lhes ter dado tudo.

O amor faz-me ser quem sou. Se há algo ou alguém que amo que deixa de estar perto, então começa o tempo da luta para encontrar a verdade de que, por mais que não pareça, o nosso amor existe; a dor prova-o com grande evidência.

Não estou só, porque amo. É quando estou mais longe deste mundo que mais sinto aqueles que amo. Não é bom… nem mau. É assim. É amor.

Cada um de nós é um amor no tempo.

O tempo acabará; o amor, não.


José Luís Nunes Martins


segunda-feira, 10 de março de 2025

O que é a Saudade?



Mais do que sentir um vazio que está à nossa frente e dentro de nós, a saudade é um desejo tão profundo de voltar a viver o que já não é, acompanhado da certeza clara de que tal aspiração jamais se concretizará.

Mais do que um passado que ainda não passou, é um amor que nunca passará.

Mais do que uma tristeza, a saudade tem a sua raiz na alegria de se ter vivido algo de grandioso.

Talvez possamos compreender melhor a saudade se nos colocarmos diante do dilema seguinte: Desejarias conhecer e viver um grande amor com alguém que morreria cinco anos depois?

A saudade é uma fratura irreparável da alma. Um hoje imperfeito porque há nele uma falta que faz a diferença entre o tudo e o quase nada. Por vezes, junta-se a ela o arrependimento de não ter vivido tudo de uma forma diferente, tantas vezes, por não ter sabido que o tempo, como o vento, tanto nos pode embalar como destruir o que julgamos ter de mais sólido.

Mas há na saudade muita fé, porque o amor é mais forte do que o tempo, a ponto de lhe conseguir superar a lógica, ainda que sem que se compreenda como, e, assim, nos ser dado viver de novo e para sempre aquilo pelo qual hoje esperamos e desesperamos.

Quem compreende e sente comigo o meu cansaço senão aqueles que me amam? Eis a razão pela qual, no cansaço, nos sentimos muito mais sozinhos e a saudade do amor concreto, quente e vivo de outros que já não estão com a sua mão na nossa vida.

Se a memória é essencial à identidade, então a saudade é uma garantia de que não deixámos de ser quem somos. Perdê-la é perdermo-nos.

À incerteza da vida nos mares do tempo, opõe-se a saudade como uma âncora no sentido mais profundo da existência: o amor


José Luís Nunes Martins


terça-feira, 9 de maio de 2023

A saudade relembra-nos o amor



A saudade relembra-nos o amor. Faz-nos viver, interiormente, o que já não pode ser vivido. É uma repetição sem momento. No entanto, permite-nos voltar ao que fomos, ao que fizemos. É a saudade que nos recorda a importância do olhar. Aquele que, em tantos momentos, nos deu a conhecer, um pouco mais de perto, o divino.

A saudade relembra-nos o amor. O amor que fomos, mas também o amor que recebemos. É a saudade que inscreve na nossa existência a certeza de nos sabermos amados, porque nos recorda os que nos ampararam e abraçaram. É a saudade que nos recorda o quão sedentos estamos do toque. O quão necessitados somos do toque.

A saudade relembra-nos o amor. Aquele amor feito em palavras que foi capaz de conjugar toda a nossa vida. Sem preocupações com o nosso pretérito-perfeito ou imperfeito, mas sempre esperançoso com o nosso presente, com o nosso futuro. É a saudade que nos relembra as palavras daqueles que foram amor. Amor que ergue. Amor que acolhe. Amor que abraça até os que já nem se encontram em casa. Amor que orienta e liberta os que não quiseram sair da sua casa, mas que, por algum motivo, perderam o brilho e a sabedoria de serem casa para os outros.

A saudade relembra-nos o amor, porque nos recorda, através do vazio, o muito que nos foi dado. O tanto que foi possibilitado viver e fazer. A saudade, vivida através do nada, não nos permite esquecer quem nos deu tudo. Quem nos foi tudo. A saudade relembra-nos o amor dos que um dia quiseram morar em nós.

Hoje, deixa que a saudade te abrace, e pergunta-te: de quem tenho saudades? De quem é que a saudade me fala? Do que é que a saudade me recorda?

Emanuel António Dias