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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando o simples se torna impossível

 


Quando o simples se torna impossível
Há dias em que não nos cansam os grandes problemas.
Cansam-nos os pequenos.
Entramos num serviço para resolver uma questão simples e saímos com um papel na mão, três números de telefone, quatro balcões visitados e a sensação de que ninguém decidiu coisa nenhuma.
"Isso não é comigo."
"Tem de falar com outro departamento."
"Eu só faço esta parte."
"Tem de voltar amanhã."
E aquilo que levaria dois minutos transforma-se numa viagem sem fim entre procedimentos, autorizações, plataformas, carimbos e pessoas que parecem ter perdido a liberdade de pensar.
O mais curioso é que, muitas vezes, ninguém fez nada de errado. Cada um cumpriu o regulamento. Cada um seguiu o protocolo. Cada um respeitou a hierarquia.
Só que, no meio de tanta regra, perdeu-se aquilo que nunca devia desaparecer:
o bom senso.
As organizações existem para servir pessoas,
não para obrigar as pessoas a servir a organização.
Quando a burocracia se torna mais importante do que a solução, quando o procedimento vale mais do que a pessoa e quando o medo de decidir pesa mais do que a vontade de ajudar, alguma coisa deixou de funcionar.
Talvez precisemos de menos formulários e mais humanidade.
Menos departamentos e mais responsabilidade.
Menos "isso não é comigo" e mais "deixe-me ver como posso ajudar".
E sim… felizmente, em Portugal isto acontece muito pouco. Afinal, quem nunca resolveu um assunto simples depois de apenas cinco senhas, três repartições e uma assinatura que afinal precisava de outra assinatura?
Uma sociedade não se mede apenas pela quantidade de regras que cria, mas pela capacidade que tem de cuidar das pessoas.

Padre João Torres
No fim, todas as empresas, instituições e serviços têm máquinas, sistemas e procedimentos… mas nenhum deles substitui aquilo que verdadeiramente faz a diferença: um ser humano diante de outro ser humano, com a humildade de dizer: “Eu vou ajudar a resolver.”
Porque, quando ninguém assume a responsabilidade, até colocar sal em pipocas pode parecer uma missão impossível.