sábado, 5 de setembro de 2020

Um dia esta dor vai nos ser útil, por Tolentino Mendonça



Não saímos ainda da pandemia, a verdade é essa. E como não a podemos remover da história concreta deste nosso presente com a facilidade que desejaríamos, a tentação atual é a de a removermos dentro de nós, ensaiando uma espécie de negação. A realidade é o que é, sabemo-lo bem, mas passamos a interpretá-la de uma forma mais aceitável para nós. As imagens do formigueiro humano que desagua nas praias (se não numa zona do país, noutra) ou se estende prazenteiramente pelas esplanadas mostra essa necessidade irreprimível de consolação. Não se trata de negar os factos ou de distorcer os números. Trata-se sim de uma operação que pode parecer de pura sobrevivência interior: expostos por um tempo longo a uma dura prova, a dada altura preferimos simplesmente bloquear o impacto da situação externa no nosso mundo emocional. É um mecanismo recorrente de distanciamento do real, que permite um certo alívio. Não queremos ouvir falar do problema ou tentamos reorientar a ameaça que ele representa, convencendo-nos que os grupos de risco são sempre os outros. Em parte foi isso que aconteceu quando se dizia que as pessoas de risco eram unicamente os idosos ou que existiam regiões mais imunes do que outras.

As experiências dolorosas podem tornar-se oportunidades para redescobrir que a vulnerabilidade também nos ensina coisas de que precisamos. Mas é necessário que não enxotemos depressa demais essas experiências para debaixo do tapete. Mais do que fugas precisamos de resiliência, conscientes da gravidade desta hora. Mais do que nos precipitarmos numa mudança de assunto (porque coletivamente chegamos a uma exaustão psíquica provocada pelo mesmo martelar monotemático em todas as frentes), seria importante elaborá-lo em profundidade, e isso só acontece se tivermos a coragem de o fazer emergir. Mais do que nos escondermos uns dos outros, apostados numa gestão individualista da questão, torna-se indispensável que nos encontremos num discurso de comunidade.

Expostos por um tempo longo a uma dura prova, a dada altura preferimos simplesmente bloquear o impacto da situação externa no nosso mundo emocional

A pandemia não tem só vítimas diretas. A quantidade de vítimas secundárias não cessa de crescer numa crise que não é apenas sanitária, mas também económica e social. É cada vez mais manifesto que a pandemia nos empobreceu terrivelmente. A fome está de volta à Europa e insinua-se como um fantasma junto de pessoas e famílias que, há apenas seis meses, não se pensariam jamais em situação semelhante. Os dados dos bancos alimentares, das Cáritas e das muitas associações que estão no terreno a distribuir bens de primeira necessidade, são clamorosos. Ouvi recentemente aos responsáveis de uma delas o seguinte testemunho: “As nossas previsões iniciais é que este socorro alimentar seria necessário até finais de abril ou até maio no máximo, e que os números começariam pouco a pouco a baixar. Ora, estamos em pleno verão e os números continuam a aumentar, o que nos deixa muito preocupados com o que virá aí no próximo outono.” Cresceram não só os indicadores de pobreza relativa mas também os de pobreza absoluta. Jovens e idosos, desempregados e trabalhadores precários, nacionais e imigrantes deixaram de poder fazer face às suas despesas essenciais.

Por isso, a pergunta mais urgente não é quanto tempo precisamos (um ano, dois anos, quatro anos?) para voltar à situação em que estávamos. A pergunta mais premente é: como é que esta dor nos pode ser útil? E a resposta é inequívoca: se redescobrirmos o sentido do próximo. Se este aluvião nos ensinar a nadar no campo da atenção solidária à vida frágil, tal como se declina em nós e nos outros.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

UMA JOVEM DE FIBRA - "O LÍRIO DOS MOHAWKS"

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Foi patrona da 17.ª Jornada Mundial da Juventude em Toronto, Canadá. Chamava-se Kateri Tekakwitha, Catarina para nós. São João Paulo II, tanto na Mensagem do Dia Mundial da Juventude de 2002 como na homilia de encerramento dessa Jornada Mundial, cujo tema era “Vós sois o sal da terra...Vós sois a luz do mundo (Mt 5, 13-14), refere-se a Catarina como “o lírio dos Mohawks”, acentuando que a santidade não é uma questão de idade. Muitos jovens mostraram virtudes heroicas diante do mundo, são exemplos de vida que a Igreja propõe a todos. Francisco, na Exortação Apostólica Cristo Vive, também a propõe aos jovens. E eu associo-me a quem procura divulgar a sua vida para que seja mais conhecida.
Muito antes de os europeus lá terem metido o bedelho, o atual Estado de Nova Iorque era habitado por dois grupos distintos de nativos, rivais entre si. Era o grupo dos Algonquianos, com várias tribos em idiomas e modos de vida semelhantes, e o grupo dos Iroqueses que constituem uma Confederação de tribos. Distribuíam-se lá pela região dos Grandes Lagos, entre o Canadá e os Estados Unidos, principalmente no Estado de Nova Iorque e na província de Quebec.
Um dia, naquelas andanças das inimizades tribais, uma mulher índia, da tribo algonquina, foi capturada por uma tribo dos iroqueses. Mas porque não há duas sem três, esta senhora acabou por ser libertada por um chefe de outra tribo, a tribo dos Mohawk. Esta senhora e este cacique Mohawk acabaram por ser os pais duma menina nascida em 1656, perto da cidade de Port Orange, no Canadá. A mãe, que era cristã, queria batizá-la com o nome de Catarina, a santa da sua devoção, mas não houve batizado. Pelo costume indígena, era ao chefe da tribo que competia dar o nome às crianças. O chefe, que era o pai e pagão, deu-lhe o nome de Tekakwitha, ‘que significa "aquela que coloca as coisas nos lugares", mostrando que ambas, mãe e filha, consideradas estrangeiras, haviam sido totalmente aceites pelo seu povo’. No entanto, a mãe nunca deixou de chamar Catarina à sua filha, nem de lhe ir semeando no coração os gestos e os valores cristãos.
Quando Catarina tinha quatro anos, seus pais e seu irmão morreram de varíola. Ela sobreviveu e ficou sob a responsabilidade do seu tio, o novo chefe Mohawk. Sobreviveu mas ficou muito sofrida, com o rosto e a vista muito afetados e outras mazelas que a desfiguravam. À medida que ia crescendo, iam ajudando a tia, inclusive na tecelagem, mas sofria pressões, era mal tratada. Quando tinha 11 anos, três jesuítas chegaram à aldeia e foram hospedados em casa do tio de Catarina, do chefe da tribo. A hospitalidade era fidalga, mas os missionários comprometiam-se a não evangelizar ninguém da tribo. À hora da refeição, os sacerdotes faziam as orações do costume, coisa que não passava despercebida aos olhos de Catarina que era quem os servia à mesa e até ficou muito sensibilizada quando um lhe disse: “Muito obrigado, minha filha, e que Deus te abençoe!”. Sempre curiosa nesta descoberta, não deixava de observar e admirar a atitude dos missionários no trabalho e no modo de ser e estar. Desejava tocar o crucifixo que eles usavam no seu trabalho apostólico, e, em segredo, tentava fazer o sinal-da-cruz e lá ia deixando sair uma prece que teria aprendido: “Ó Deus, ajudai-me a Vos conhecer e amar!”
Segundo as tradições da tribo, para ela só havia um caminho, casar-se. Eram os parentes que escolhiam o noivo. Como, porém, se tratava da família do cacique, não seria difícil. E o cerco não se fez tardar. Sem ela suspeitar, seus tios organizaram uma festa com o noivo por eles escolhido e com os seus familiares. Catarina ficou encarregada dos cozinhados para a festa. Ao aproximar-se o momento da receção, mandaram-na vestir e ornamentar-se para bem receber e servir os convidados, como convinha às regras do bom acolhimento e à sua categoria de filha e sobrinha de cacique. Embora estranhando o jeito dos convidados, ela só percebeu a marosca à hora de servir à refeição. Segundo o costume local, o casamento concretizava-se pelo simples facto de a “noiva” servir o “noivo” com o prato tradicional na presença de ambas as famílias! Ali, porém, é que a coisa ficou séria, os pratos voaram e o estrondo fez arregaçar as pálpebras e pular o silêncio boquiaberto dos comensais amuados. Firme na sua determinação e correndo o risco de ser colocada à margem da tribo e de viver na pobreza, teve um gesto de coragem. Não serviu o “noivo”, atirou com o prato ao chão e retirou-se, regressando só depois de os convidados terem abalado. Porque rejeitou este “bom partido” com que a queriam presentear, a fúria dos parentes não se fez esperar. Durante cerca de um ano, foi tratada como escrava, tudo suportando sem queixumes.
A vida na aldeia lá corria e a catequese fazia-se em pequenos grupos. Ela, porém, embora o desejasse, estava proibida de a frequentar. O caminho, porém, ia-se fazendo. Certo dia, ela expôs a um missionário o que lhe ia na alma e o seu desejo de ser batizada. O missionário, receoso pela perseguição a que a jovem podia ser sujeita, mas apreciando a sua determinação, aceitou prepará-la para o Batismo. A família foi-se abrindo, o interesse e a capacidade de Catarina admiravam os jesuítas. Pouco depois, em 18 de abril de 1676, sentiu a alegria de ser batizada. No entanto, a vida não lhe continuava fácil. Por isto e mais aquilo, e porque rejeitava as propostas de casamento, a situação ficou insustentável, ela fugiu. Ferozmente perseguida pelos seus tios e preocupados com a sua segurança, os jesuítas ajudaram-na a chegar à Missão de São Francisco Xavier, em Sault, Montreal, levando uma carta para o Padre superior dessa comunidade, onde se dizia: “Catarina vai agora juntar-se à sua comunidade. Dê-lhe guia e direção espiritual e o senhor logo perceberá que joia nós lhe enviamos. Sua alma está muito próxima de Deus Nosso Senhor….”.
Naquela aldeia, Catarina sentiu-se livre para praticar a fé, assistir à Eucaristia diária e crescer nos seus desejos de perfeição, dando exemplo de extraordinária piedade e sem descuidar o serviço à comunidade. No entanto, quase todas as comunidades têm os seus cristãos de meia tigela, os detratores, os maledicentes, os azae dos bons costumes a esticarem-se para ver o cisco nos olhos dos outros e a não enxergar a trave que está nos seus. Também ali, não faltou quem tentasse denegrir Catarina, o que, partindo da comunidade cristã, mais a fazia sofrer. Fazendo que não percebia, apresentava-se sempre bem disposta, alegre, diligente no serviço à comunidade. Aos poucos, a aldeia começou a considerá-la com respeito e admiração, ao ponto de se comentar: “Catarina só pode ser encontrada no caminho para a igreja, para os pobres e para os campos”. Ninguém escondia a sua admiração por aquela “garota índia que vive como uma freira”. Amante da natureza e sempre discreta, recolhia-se por longos períodos na floresta. Aí, diante de uma cruz que ela havia traçado na casca de uma árvore, ficava em oração, contemplando as maravilhas da natureza, louvando, agradecendo.
Em 1679, com 23 anos de idade, fez voto perpétuo de castidade, a primeira a fazê-lo entre os índios da América do Norte. Chegou a expressar o desejo de fundar um convento só para jovens indígenas, mas foi desaconselhada mercê da sua delicada saúde.
Com alegria sobrenatural permanecia firme: “Eu entreguei minha alma a Jesus no Santíssimo Sacramento e o meu corpo a Jesus na Cruz”. Sentindo que o fim se aproximava, recebeu os últimos sacramentos, rezava o seu amor a Jesus com alegria inaudita, apesar do sofrimento. Faleceu a 17 de abril de 1680, aos 24 anos de idade, sempre com o desejo de que os povos indígenas dos Estados Unidos e do Canadá conhecessem e vivessem a Paixão de Jesus. Momentos antes de morrer, o seu rosto, marcado pelas cicatrizes e sofrimento, tornou-se belo e sem marcas, com um sorriso de encantar. Não só os jovens, a aldeia inteira chorou a sua partida.
O milagre e a fama das suas virtudes espalhou-se rapidamente, muitos dos seus irmãos de raça se converteram. Foi beatificada em 22 de junho de 1980 por São João Paulo II e celebra-se em 14 de julho. Ao lado de São Francisco de Assis, Catarina é honrada pela Igreja como "Padroeira da Ecologia e do Meio Ambiente". 

D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 04-09-2020.

Como viver na incerteza sem fim?




Não conseguimos prever grande parte do nosso futuro. Planeá-lo com inteligência implica deixar uma enorme margem em branco, porque quase tudo pode mudar em pouco tempo.

Quase todos gostávamos de controlar o futuro. Mas isso é impossível, por causa da nossa natureza e das circunstâncias em que vivemos. Ninguém pode prever com exatidão o resultado a longo prazo de uma ação sua, ou qual o efeito que uma determinada condição que aparece hoje vai ter no nosso futuro mais distante.

Viver é aceitar o desafio de navegar no mar do desconhecimento. Importa ser humilde e acreditar que podemos e devemos decidir o nosso dia a dia, uma coisa de cada vez. Sem a ilusão infantil de querer com uma só ação mudar tudo de uma vez e para sempre.

Tudo é possível. Mas isso não significa que o caminho para o que parece impossível seja fácil ou curto. As nossas maiores conquistas consomem-nos tanto que, ao alcançá-las, em vez de glória, sentimos um enorme alívio por termos chegado ao fim dessa nossa luta.

Nada é certo. O mundo é muito mais complexo do que alguma vez poderemos compreender. Os outros seres humanos não são meros figurantes da minha vida, são tão dignos como eu de estar aqui e de serem protagonistas da sua e da minha existência, pelo que, as decisões que fazem o meu futuro não são apenas as minhas.

Somos pequenos e frágeis. Quando não aceitamos com humildade os nossos limites, caímos com enorme facilidade em desequilíbrios, porque ao querer tudo de uma vez, vamos para os excessos de onde… é fácil cair no abismo.

É preciso desapegarmo-nos da vontade de controlar tudo. Até porque, se o fizéssemos, seria uma tragédia maior do que podemos imaginar! Nenhum de nós é o centro do mundo e isso é uma excelente notícia!

Nenhuma vida está isenta de males, mas há sempre bens em seu redor. Em vez de vivermos focados no incerto e no mal que existe e naquele que ainda pode chegar, devíamos admirar o bem que nos rodeia e nunca deixar de sonhar! Acordando cedo para trabalhar pelo que bem que queremos.

Aceita a vida como ela é. Procura o melhor lugar para onde dares o próximo passo, sempre. Pouco importa que estejas no fundo do poço ou no cimo da montanha mais alta.

Qual é a melhor coisa que podes fazer a seguir a ler este texto?

Faz isso.

José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Tzimtzum, por Tolentino Mendonça



Penso no significado deste espaçamento que somos chamados agora a manter nas relações uns com os outros. Esta distância social começa, é verdade, como uma motivação sanitária objetiva. Pelas razões que sabemos, passamos a nos comportar assim, ponto final. Mas a nossa perceção interior, a ressonância emocional desse facto em nós, o que ele desencadeia e desencadeará se a situação perdurar, o modo como o elaboramos na nossa subjetividade significa, no mínimo, que o ponto final se torna uma vírgula. Porque se em vez de darmos um passo em frente para chegar ao outro, como nos é natural, aceitamos uma retração, um espaçamento dilatado (que pode ser de um metro e meio, dois metros, o que seja) isso altera alguma coisa fora e dentro de nós. É como se introduzíssemos um hífen entre as palavras eu e tu. Um hífen que permanece.

Como em todas as coisas podemos ver, também aqui, uma oportunidade, pelo menos para refletir sobre o modo como vivíamos a proximidade e a distância, e para revermos criticamente os nossos automatismos. Não basta aproximar-se para se ser efetivamente próximo. E, da mesma maneira, quando estamos distantes nem sempre quer dizer que estejamos desligados: pode-se experimentar na distância uma real intensidade de comunhão. A distância e a proximidade precisam, por isso, de ser esclarecidas e purificadas. E este pode ser um tempo propício.

Mas há dias dei comigo a matutar se o que nos está a acontecer não seria, à sua maneira, o nosso tzimtzum. É ao místico judeu Isaac Luria (1534-1572) que é atribuída a paternidade deste conceito. Na linguagem simbólica e paradoxal, que não raro é a dos místicos, Luria explica que para poder criar o mundo Deus teve de efetuar, em relação a si mesmo, um movimento de retração, pois, sendo Deus omnipresente, não havia espaço algum que não fosse Deus. O tzimtzum é essa retração, esse vazio gerado pela retirada de Deus para permitir a emergência do mundo. A criação como que implicou, por isso, uma espécie de exílio do próprio criador: ele retira-se em parte do seu ser, reforçando ainda mais o seu mistério.

Não basta aproximar-se para se ser efetivamente próximo. E, da mesma maneira, quando estamos distantes nem sempre quer dizer que estejamos desligados

No século XX, o conceito do tzimtzum vai, curiosamente, reaparecer em autores como Simone Weil ou Hans Jonas, e em ambos os casos sob o impacto da devastação espiritual provocada pela experiência da II Guerra Mundial. Weil, interpretando a natureza contraditória do mundo, escreve: “Do ponto de vista de Deus a criação não é um ato de autoexpansão, mas de diminuição e renúncia. Deus com todas as criaturas é menos que Deus só por si. Mas Deus aceitou esta diminuição.” De forma análoga, temos o posicionamento de Hans Jonas na sua obra “O Conceito de Deus Depois de Auschwitz: Uma Voz Hebraica”. Jonas coincide na consideração de que apenas a autolimitação do princípio divino abriu espaço à autonomia e existência do mundo, mas a sua representação de Deus é a de um Deus em sofrimento desde a origem do mundo e, ainda mais, desde a criação do homem. O Deus do tzimtzum, segundo o autor, é um Deus de silêncio, um Deus vulnerável e preocupado, mas é também um Deus surpreendentemente próximo e aberto à relação. De facto, o tzimtzum obriga-nos a pensar num duplo sentido: por um lado, o seu significado é o de um exílio que se prova (e exílio quer dizer espaçamento, radical insegurança, esvaziamento de si); por outro, faz-nos compreender o espaçamento como possibilidade concedida à alteridade e a um efetivo (re)encontro com o outro. Vem-me à cabeça o belíssimo poema de Adília Lopes: “Na vida e no poema/ dar menos um passo.” Saberemos o que isso representa? Saberemos fazê-lo?



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O regresso possível e prudente às atividades pastorais




Fazendo uso das tecnologias digitais, D. Antonino Dias, Bispo da Diocese de Portalegre – Castelo Branco reuniu-se com o Vigário Geral, Vigário Episcopal do Clero, os Arciprestes, e os Diretores de alguns Secretariados sectoriais.

O primeiro momento foi dedicado a cada um partilhar a sua realidade local, sobre a Covid – 19 e as suas implicações na vida pastoral, para assim haver uma visão de conjunto.

Dessa partilha percebeu-se que com focos pontuais e, até ao momento, sempre rapidamente controlados pelas autoridades de saúde, a situação na Diocese tem sido, no que toca à pandemia, serena.

Desta Reunião combinou-se fazer o presente Comunicado:

Comunicado

1. Será prudente adiar o início da Catequese da infância e adolescência nas paróquias até ao final do mês de outubro, com vista a deixar estabilizar o início da escola e os eventuais impactos na situação pandémica.

2. Quando começar a Catequese, ter-se-á sempre em vista o estrito cumprimento das regras de distanciamento, uso de máscara e desinfeção, não podendo acontecer catequese em sítios onde não haja condições para que aconteça em segurança.

3. As pessoas pertencentes a grupos de risco, catequistas ou catequizandos, não devem frequentar presencialmente a catequese, encontrando-se, com criatividade e responsabilidade, formas que permitam a uns exercer o ministério e a outros ser ajudados a descobrir a amizade com Jesus.

4. O Secretariado Diocesano da Educação Cristã da Infância e Adolescência pondera propor momentos de formação de catequistas, inicial ou contínua, por via digital.

5. As atividades com jovens, organizadas pelo Secretariado da Juventude e Vocações estão agendadas, mas sujeitas às contingências próprias de cada momento. Tudo o que não for possível realizar com presença pessoal, realizar-se-á por vias digitais.

6. A Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, continua a ser o grande horizonte e a meta de toda a ação pastoral, principalmente neste sector juvenil.

7. D. Antonino, concordando com a proposta feita pelo Secretariado de Liturgia, aceitou prolongar por um ano todos os mandatos de MEC, MECDAP e MECDEAP que terminavam no dia 31 de Dezembro de 2020, dispensado assim a habitual realização da formação para a renovação de mandatos.

8. Os párocos que queiram apresentar Novos Candidatos a estes ministérios laicais, devem fazê-lo até 31 de Outubro 2020 para que, em articulação estreita entre o Secretariado de Liturgia e os párocos se encontre com criatividade a forma mais segura e eficaz de iniciar a sua formação.

9. As Reuniões de Clero dos Arciprestados, a acontecer, sejam realizadas com os cuidados e regras de distanciamento necessários. Lembrem-se que se algum que participou na reunião testa positivo, todos terão de ficar em quarentena, o que fará com que todo o arciprestado fique sem a presença de sacerdotes…

10. A Assembleia Diocesana de Pastoral agendada para o último sábado de setembro será substituída por uma presença nas redes sociais da Diocese de modo a orientar e estimular as comunidades cristãs no arranque deste Ano Pastoral 2020 – 2021.


Portalegre – Castelo Branco, 1 de Setembro de 2020



Falta-nos ir mais fundo



Falta-nos ir mais fundo. Mergulhar nas águas da nossa história sem medo de enfrentar a escuridão do que não queremos recordar, nem voltar a ser. Tocar bem no fundo do que somos e reavivar a essência que nos define e que somos chamados a colocá-la à tona.

Falta-nos ir mais fundo. Metermo-nos bem debaixo dos caminhos que temos percorrido. Deixarmos que as pegadas se entranhem nesta humanidade sedenta de sentido e alimentada por uma permanente busca. Precisamos de alcançar as profundezas do mundo e deixar que a fé seja a única coisa que nos possa salvar.

Falta-nos ir mais fundo. Falta-nos andar sobre as águas. Percorrer o oceano que nos convida a chegar a onde jamais pensaríamos ter pé. Arriscar nas incertezas sem que a confiança nos possa demonstrar os limites de tal loucura.

Falta-nos ir mais fundo. Respirar bem fundo. Guardar todo o oxigénio necessário para percorrer as marés agitadas de um perdão que ateima em não chegar. Necessitamos de ser mais fortes e deixar que tudo seja restituído nas Suas mãos. Sem que a razão nos oprima ou nos elimine as hipóteses que surgem de uma verdadeira oração.

Falta-nos ir mais fundo. Bem ao fundo daquilo que somos. Precisamos tanto de O ver. Precisamos tanto de nos ver como Ele nos vê. Com um amor de Pai com entranhas de Mãe. Extremamente babado. Renovando, em todos os dias, a esperança de nos ver chegar a Sua casa.

Falta-nos ir mais fundo. Para O vermos com clareza. Num reflexo genuíno deixando que todo o Seu clarão nos possa iluminar. Falta-nos ir mais fundo para que tudo o que vem d'Ele se cumpra em nós.

Emanuel António Dias


terça-feira, 1 de setembro de 2020

«Vídeo do Papa»: Francisco pede que os recursos do planeta «não sejam saqueados, mas partilhados»

Papa alerta que «bens do planeta» estão a ser espremidos «como se fosse uma laranja»




Cidade do Vaticano, 31 ago 2020 (Ecclesia) – O Papa Francisco apela à partilha “de forma justa e respeitosa” dos “recursos do planeta” que estão a ser “saqueados”, e alerta que se está a gerar uma “dívida ecológica”, no vídeo com a intenção de oração de setembro.

“Rezemos para que os recursos do planeta não sejam saqueados, mas partilhados de forma justa e respeitosa. Não ao saque, sim à partilha”, pede na nova edição de ‘O Vídeo do Papa’, enviada hoje à Agência ECCLESIA e divulgada nas plataformas digitais.

O Papa explica que “países e empresas do norte enriqueceram” explorando dons naturais do sul, “gerando uma ‘dívida ecológica’” que “é ampliada” quando as multinacionais fazem fora de seus países “o que não têm permissão para fazer nos seus”, o que “é ultrajante”.

“Estamos a espremer os bens do planeta. Espremendo-os, como se fosse uma laranja”, alerta Francisco que questiona quem “pagará essa dívida”.

“Hoje, não amanhã, hoje, temos que cuidar da Criação com responsabilidade.”


O ‘Vídeo do Papa’ de setembro, dedicado ao ‘Respeito pelos recursos do planeta’, é divulgado no âmbito do ‘Tempo da Criação’, que começa esta terça-feira com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e termina a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis.

Já neste domingo, Francisco associou-se ao ‘Jubileu da Terra’ e convidou as comunidades católicas a celebrar o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação associando-se à iniciativa ecuménica que assinala a instituição, há 50 anos, do Dia da Terra.

O ‘Vídeo do Papa’ é uma iniciativa global desenvolvida pela Rede Mundial de Oração do Papa (Apostolado da Oração) e na informação enviada à Agência ECCLESIA, o seu diretor internacional afirma que “hoje, mais do que nunca”, é preciso “ouvir esse clamor e promover concretamente um estilo de vida pessoal e comunitário sóbrio e solidário, uma ecologia integral”.

“Vamos rezar por isso, porque é um caminho de conversão”, apela o padre Frédéric Fornos (Jesuíta), considerando que “nestes tempos de pandemia” as pessoas estão “mais conscientes da importância da casa comum”.

A Rede Mundial de Oração do Papa alerta, através de alguns relatórios internacionais, que “quase mil milhões de pessoas vão dormir com fome todas as noites” por causa da “profunda injustiça na maneira como a comida é produzida e distribuída”.

A Igreja Católica está a viver desde maio um ano dedicado à encíclica ecológica e social do Papa Francisco ‘Laudato si’, promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (Santa Sé).

CB