sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A caridade não é aquilo que fazemos



A caridade não é aquilo que fazemos. É aquilo que somos.

Dá para fazer muito pelos outros e continuar longe deles.
Podemos preencher o formulário, entregar o cabaz, marcar a consulta, cumprir o horário, fechar o relatório. Tudo isso é preciso, e quem o faz merece o nosso respeito. Mas há quem saia de um balcão com o papel carimbado e o coração na mesma. E há quem saia sem papel nenhum, só com a sensação de que alguém o viu.
Fazer bem não é o mesmo que estar presente.
A caridade cristã pede mais do que respostas. Pede proximidade, escuta, tempo. Pede que o outro deixe de ser um caso e volte a ser um rosto.
Costumamos dizer, com orgulho e com razão: «Temos um Centro Social. Temos uma Conferência Vicentina. Temos a santa Casa da Misericórdia. Temos uma equipa socio-caritativa.» É bom que existam. Mas antes de todas as respostas há uma pergunta mais funda: que pessoas somos nós quando encontramos alguém que sofre?
O jesuíta Paul Valadier avisa-nos de um risco silencioso. Não critica as obras sociais da Igreja, nem a urgência de cuidar dos pobres. Teme que a caridade, de tanto se organizar, acabe a gerir a pobreza em vez de a combater. Que passemos a administrar, com toda a competência, a permanência de alguém no sítio de onde devia sair.
Uma instituição pode funcionar na perfeição e já ter perdido a alma.
E acontece sem darmos por isso. A pessoa vai desaparecendo atrás do processo.
O pobre passa a ser um processo.
O idoso passa a ser uma vaga.
O doente passa a ser um diagnóstico.
O preso passa a ser um número.
A família passa a ser um agregado.
O toxicodependente passa a ser um caso.
O alcoólico passa a ser um problema.
Quem vive sozinho passa a ser uma estatística.
Precisamos de nomes, de critérios, de organização. Mas chega um momento em que é preciso parar e perguntar: onde está a pessoa?
Jesus nunca encontrou categorias. Encontrou pessoas. Ele não começava por perguntar o que tinham feito. Perguntava o que lhes estava a acontecer. É uma diferença enorme. É a diferença entre julgar e acolher.
Uma coisa é olhar para alguém e dizer «é um pobre», «é um preso», «é um problema». Outra, bem diferente, é reconhecer: «É alguém. Tem nome. Tem história. Tem feridas. Tem uma dignidade que ninguém lhe pode tirar.»
É aqui que a caridade começa a sério. Não quando classificamos melhor, mas quando voltamos a ver. Não quando gerimos melhor a pobreza, mas quando encontramos o rosto que ela esconde.
E fica a pergunta, só para si: quando foi a última vez que alguém lhe soube o nome sem precisar de consultar a ficha?
.
Padre João Torres

Sem comentários:

Enviar um comentário

Este é um espaço moderado, o que poderá atrasar a publicação dos seus comentários. Obrigado