Haja esperança! Fomos criados à imagem e semelhança de quem nos criou. Quem nos criou é essencialmente relacional e livre. Define-se pelo diálogo, pelo encontro, pela comunicação, pela comunhão: “Deus é amor”. Por isso, somos, por natureza, seres sociais e livres. Ainda barro fresco acabado de modelar, talvez já cansados por sermos convidados a dar o nome a toda a bicharada, confrontados com a tentação, logo sucumbimos perante a árvore do bem e do mal. Talvez que esse momento fosse, para o homem, a plena tomada de consciência de si mesmo, a sua passagem “de ser natural e instintivo, a ser que vive uma existência histórica-humana”. A liberdade que tínhamos, de optar, também incluía o risco de optar pelo mal. Por respeito e amor, o Criador assumiu esse risco e a humanidade voltou-lhe as costas. Deus, porém, porque nos amou primeiro e nos continua a amar, não nos pagou na mesma moeda. Veio ao nosso encontro para, como amigo, estabelecer connosco o diálogo da salvação. Esse diálogo foi-se promovendo gradualmente. Deus foi-se revelando até que se revelou em plenitude em Jesus Cristo seu Filho, que se fez homem. Jesus, em constante diálogo com o Pai, dialogou com todos, com respeito por todos. Sem limites, sem cálculos, sem preconceitos, sem exceção, sem olhar aos méritos dos interlocutores, sem se impor, sem obrigar a responder. Instituiu a Igreja e, em seu nome, enviou-a por todo o mundo a fazer como ele fez, o promover o diálogo com Deus e com toda a humanidade e da humanidade entre si, a reproduzir no tempo a vida que existe no seio de Deus. E de forma universal, sem exceção, respeitando as lentidões da maturação psicológica e histórica, sem coação, sem deixar para amanhã o que pode conseguir hoje e tomando a iniciativa, com amor e respeito, com delicadeza, estima, simpatia e bondade, com clareza, mansidão, confiança e prudência pedagógica, convergindo para a verdade, recusando o relativismo, estando no mundo sem ser do mundo. Sem condenação apriorística, sem polêmica ofensiva, sem prurido de falar por falar, mas com apreço pela dignidade e liberdade do interlocutor, dispondo-o à comunhão mais plena de sentimentos e convicções (cf. Paulo VI, Ecclesiam Suam, 6/8/1964). Mesmo assim, os homens muitas vezes falharam e continuam a falhar. O diálogo dos homens com Deus, dos crentes e não crentes ente si, o diálogo com a cultura, a ciência e a filosofia e dos homens entre si como necessidade, orça em déficit acentuado. No último Concílio, o Espírito reconduziu as coisas ao seu lugar e foi publicada a Declaração Nostra aetate, na qual a Igreja reconhece que nas tradições religiosas também há valores verdadeiros e santos, convidando os fiéis a olhar com respeito “esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas”. Esse convite continua a constituir para a Igreja “um desafio permanente: como conjugar fidelidade à identidade cristã e abertura sincera à alteridade? Como viver concretamente o apelo à fraternidade universal em sociedades marcadas pela crescente diversidade cultural e religiosa, pela guerra e pela violência e caracterizadas pelo impulso crescente à secularização?” Três Dicastérios publicaram, em conjunto, em 16 de setembro passado, uma Nota a propósito dos sessenta anos dessa Declaração conciliar. Porque a Nota é maior que a própria Declaração e é pena que não chegue às pessoas, vou pescar dela algumas ideias sobre os trabalhos desenvolvidos. Revendo o caminho percorrido, a Nota, com esperança e gratidão, fala da transformação do relacionamento inter-religioso que houve a partir da referida Declaração, dizendo: “A Igreja passou de uma atitude muitas vezes reservada ou distante a um corajoso caminho de diálogo sincero, de encontro respeitoso e de cooperação fraterna. Esta herança constitui um património vivente e irrenunciável, que continua a interpelar os fiéis de hoje e os compromete a prosseguir esta aventura humana e espiritual, tão vital para o nosso tempo”. Afirma a atualidade do documento e que a “fraternidade entre crentes de diversas tradições religiosas não é um simples ideal, mas uma exigência moral, espiritual e social. Diante dos desafios contemporâneos - extremismos religiosos, migrações globais, secularização, crises ecológicas e sociais - as religiões são chamadas a transformar o mundo e a sociedade para que sejam expressões fraternas da vontade de Deus”. Prosseguindo com determinação este caminho exigente, a Igreja convida a que todos se tornem “construtores de pontes, não de muros”, artesãos de paz e de fraternidade, capazes de acolher o outro na sua diferença, de reconhecer as riquezas espirituais e de colaborar na construção de uma sociedade mais justa e mais humana. Acentua a necessidade de avançar resolutamente nesta direção. Neste arco de tempo, se tem havido frutos evidentes na relacionamento entre a Igreja Católica e o judaísmo e o islão, também a Igreja dialogou e colaborou, por exemplo, “em diversos âmbitos e em vários níveis, com os seguidores do hinduísmo, do budismo, do jainismo, do sikhismo, do shintoísmo, do taoísmo, do confucionismo e do zoroastrismo, além das religiões tradicionais, em particular aquelas africanas”. Foram instauradas relações duradouras de amizade entre responsáveis religiosos, encaminhados projetos educativos e sociais conjuntos, publicadas declarações comuns diante de dramas humanitários, guerras ou crises ambientais, promoveu-se a cultura do diálogo e do encontro, trocaram-se mensagens de felicitações aos amigos das outras tradições religiosas por ocasião das suas festas principais, para revigorar e reforçar os laços de estima recíproca e colaboração e aplaudem-se os bons testemunhos de boa convivialidade.
A Nota não esconde que, apesar dos progressos, as dificuldades do diálogo permanecem. Alguns ambientes continuam a duvidar da sua oportunidade, temendo o relativismo doutrinal ou a diluição da identidade religiosa. Em algumas regiões, as relações entre fiéis de diferentes religiões são historicamente conflituosas, e a lembrança das feridas antigas torna difícil a confiança recíproca. Noutros lugares, o crescimento dos fundamentalismos, a permanência dos preconceitos, a manipulação política das pertenças religiosas ou as violências em nome de Deus minam as bases do diálogo. As tensões identitárias, o fechamento das comunidades, a manipulação política do facto religioso, mas também a indiferença crescente em muitos países para com toda forma de espiritualidade, obrigam a renovar as modalidades do diálogo num mundo em rápida transformação. Não é fácil abandonar as lógicas de defesa, de hostilidade ou de conquista, para adotar uma atitude aberta, benévola, corajosa. Os modelos monolíticos e isolados, que encorajam a visão fechada da realidade são inadequados, são fonte de violência e de sofrimento (cf. Nota - Um Caminho de Esperança, dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-Religioso, de 16/09/2026).
D. Antonino Dias
Caminha, 09-10-2026.

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