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sexta-feira, 20 de março de 2026
No meio do caos, o silêncio
Vivemos mergulhados em crises. Se não é por uma razão é por outra. Se não é por rebentar uma guerra externa, é porque rebenta uma guerra a partir de dentro de nós. Parece-me que acaba por ser difícil recordar-nos dos tempos calmos ou pacíficos. Quase sentimos que nem sequer existiram realmente.
Quando tentamos encontrar sentido para o mundo lá vamos recorrendo às notícias, ao que nos é comunicado nas mais diversas formas. E, mais uma vez, o que encontramos são autênticas odes ao caos. Ao medo. Ao desespero. É como se não houvesse outra forma de gerir os assuntos a não ser através da desesperança que se espalha e contagia.
Se pensarmos bem, tudo nos aponta caminhos que nos enrolam sobre nós próprios. Que nos fazem deixar de ver o que é mais importante.
É profundamente importante que consigamos encontrar lugares e espaços que nos permitam ser quem somos. Que nos permitam sentir a segurança do momento presente, por muito que o futuro pareça confuso. Que o tempo para estarmos em silêncio seja construído mesmo no meio da confusão, das rotinas, das filas de trânsito intermináveis.
Só quando voltamos a nós podemos estar realmente em paz.
O que se passa for a de nós não está ao alcance nem da nossa asa nem do nosso controlo.
Por isso, na dúvida, volta para ti. Retira-te de tudo o que te distrai e te destrói e rema para o lado de dentro.
As águas das decisões dos outros não podem ser navegadas por ti.
As tuas sim.
Apesar de tudo o que nos acontece e nos desarma tão completamente, ainda há esperança. Ainda há verdade. Ainda há caminho.
Que saibamos dar-nos a mão e levar-nos por onde precisamos de ir.
Ou parar-nos nos lugares que precisam do nosso amor.
O lugar mais precioso mora dentro de tudo o que somos. Que saibamos cuidar melhor dele. Para nosso bem. E de todos.
Marta Arrais
quinta-feira, 5 de junho de 2025
A crise obriga ao discernimento
Nada existe neste mundo que não esteja sujeito a crises. Mas é difícil ter de viver sempre no meio de tantas. Chega a parecer que há uma certa ordem na desordem a fim de garantir um caos constante.
Quando por fim chegamos a um momento de paz, devemos aproveitar ao máximo, porque depois da bonança vem sempre a tempestade.
Mas como devemos navegar em águas revoltas, ventos fortes e correntes traiçoeiras? A violência nunca é derrotada com violência. O mal combate-se com o bem, por isso, no meio de uma tormenta o que mais importa é manter a calma e procurar ver com clareza o que à primeira vista parece obscuro, para que, aos poucos, se comece a distinguir o verdadeiro do enganador, o certo do errado, o bem do mal.
Há nas crises um momento chamado crítico, um lugar decisivo, um ponto a partir do qual, ou tudo piora sem retorno possível, ou de onde se começa a melhorar.
Viver uma crise implica um esforço para superar o que parece ser um furacão que nos arrebatou do nosso conforto e nos deixou no fundo de um abismo esquecido.
A crise é tempo de discernimento. No meio do caos, é preciso encontrar os momentos e as ações decisivas para o atravessar e transformar toda a agitação em ordem. É do caos que nasce a ordem — ou melhor, é do caos que a ordem se constrói.
Ser humano implica criar a partir, não do nada, mas do indefinido. As crises são a matéria-prima pela qual somos forçados a crescer. Ninguém sai igual ao que era quando entrou. As crises ou nos destroem por completo ou nos fortalecem, apesar do que temos de sofrer.
Mas… existirá algo que seja sempre o que mais importa valorizar?
Sim, a vida.
A dos nossos e a nossa. Por esta ordem.
José Luís Nunes Martins
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Bom uso das Crises
Bem-aventuradas as famílias que arriscam fazer um bom uso das crises
Georges Rouault, 1948
Atravessar etapas de crise não é necessariamente mau: permite-nos um olhar a que ainda não havíamos chegado, permite-nos escutar não apenas a vida aparente, mas a insatisfação, a sede de verdade e de sentido, e passar a assumir uma condição mais activa e assumida. Mudar não significa tornar-se outro, mas fazer uma experiência mais autêntica de si. No fundo, só mudamos quando nos encontramos. Não nos escutarmos, até ao fim, isso sim é desperdiçar uma preciosa ocasião para aceder àquela profundidade que pode devolver sentido à existência. Talvez precisemos descobrir que, no decurso do nosso caminho, os grandes ciclos de interrogação, a intensificação da procura, os tempos de impasse, as experiências de crise podem representar verdadeiras oportunidades. Quanto mais conscientes dos nossos entraves, limites e contradições, mas também das nossas forças e capacidades, tanto mais podemos investir criativamente no sentido da nossa identidade. Isso implica uma mudança de ponto de vista sobre nós próprios e o mundo, e advém daí naturalmente uma instabilidade face a modelos que se tinham por adquiridos. Os partos indolores são uma mistificação. Quem tem de nascer, prepare-se para esbracejar.
Mas há um momento em que aprendemos que vale mais prestar atenção àquilo que em nós está a germinar, num lento e invisível (e inaudível) processo de gestação, do que àquilo que perdemos.
Em 1999, uma tempestade varreu drasticamente a Europa. No rastro de desolação, estima-se que terão ficado tombadas cerca de trezentos milhões de árvores. Em França, nas semanas que se seguiram, os gabinetes governamentais elaboraram aprofundados programas de reflorestação, procurando ao mesmo tempo tirar partido do acidente, pois a floresta seria por eles reconstruída com uma racionalidade mais adequada. Mas quando passaram ao terreno, os engenheiros florestais aperceberam-se de que a floresta tinha começado a regeneração mais rapidamente do que supunham. E inclusive, contrariando os planos técnicos, a floresta havia encontrado configurações novas, muito mais vantajosas do que aquelas oficiadas pela abstracta geometria dos gabinetes.
Pontifícia Universidade Católica-Minas, Belo Horizonte, Brasil,
sexta-feira, 5 de julho de 2013
A FORÇA DA FAMÍLIA EM TEMPOS DE CRISE
A FORÇA DA FAMÍLIA EM TEMPOS DE CRISE
Nota pastoral dos nossos Bispos
A família representa um bem público, um bem social… um bem para a realização pessoal, no plano afetivo, espiritual, de cada um dos seus membros. A saúde e coesão de uma sociedade dependem, por isso, da saúde e coesão da família.
Só a família concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta função social.
A família é o santuário da vida e do amor, lugar da manifestação de uma grande ternura.
Só àqueles que sobrevivem nas confusões, sejam elas terminológicas, morais/éticas ou pseudo-culturais, interessa confundir as noções de ‘família’
Na família respeita-se a dignidade da pessoa humana. Nela a pessoa é acolhida e amada pelo que é, não pelo que faz ou pelo que produz. O contexto familiar é aquele em que os mais vulneráveis, incluindo os idosos não deixam de ser valorizados.
A família é a primeira e mais básica escola de sociabilidade. Nela se aprende a convivência com o outro e o diferente; o homem é diferente da mulher, os irmãos nunca são iguais, e os filhos nunca são o reflexo da imagem dos pais.
A crise económica e social que o nosso país atravessa, evidência a riqueza que representa a família. Tem sido a solidariedade familiar o primeiro e mais seguro apoio de quem se vê a braços com o desemprego, ou a queda de rendimentos com a consequente incapacidade de fazer face a compromissos essenciais, como a da habitação.
Talvez, o mais eloquente sinal de que a crise da instituição familiar se traduz em malefícios sociais, seja o da crise demográfica, que muitos consideram o mais grave dos problemas sociais das sociedades europeias, numa perspetiva do seu futuro mais ou menos próximo.
As últimas estatísticas apontam Portugal como um dos países com mais baixa taxa de natalidade em todo o mundo.
Não há idosos “a mais”, porque estes são sempre uma riqueza, e nunca um peso. O que é problemático e causa desequilíbrios é que não nasçam crianças. (...) o contributo decisivo para vencer a crise demográfica situa-se no plano da cultura e da mentalidade.
Mas como poderemos acreditar que o Estado/governo são ‘pessoas de bem’ se protegem quem combate a vida, matando-a ainda antes de nascer?
Quando se paga, repetidamente, o recurso ao método do aborto e não se ajuda quem quer ter filhos, ainda estaremos a salvaguardar o nosso futuro?
Para vencer a crise demográfica, há que acreditar na família como um projeto duradouro, assente num compromisso de doação total. Só nesse contexto é razoável a decisão de ter filhos. Se a saúde e coesão da sociedade dependem da saúde e coesão da família, esta está estritamente ligada à sua estabilidade.
Nota pastoral dos nossos Bispos
Quando se paga, repetidamente, o recurso ao método do aborto e não se ajuda quem quer ter filhos, ainda estaremos a salvaguardar o nosso futuro?
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