sábado, 31 de outubro de 2026

CONSELHO DE ESTADO EM DIA DE FIÉIS DEFUNTOS


Feliz coincidência!... E porque não?... É o dia da comunhão universal: dos vivos entre si, dos vivos com os mortos e dos mortos com os vivos, para que todos se digam, com alegria e esperança, e se deem as mãos. É o dia da saudade, e as saudades são as memórias do coração!
Ao ouvir a notícia de tão elevada reunião, imaginei as preocupações de quem a convocou e logo recordei Ezequiel, esse grande profeta, lá, na sua guarita de sentinela do povo. Naquele tempo, século VI a. C., Ezequiel foi levado, em visão, a um vale coberto por ossos ressequidos. Interpelado sobre se aqueles ossos poderiam voltar à vida, Ezequiel disse que só se fosse por ‘milagre’. Instado a profetizar sobre eles, logo se ouviu um estranho ruído. Os ossos começaram a movimentar-se, indo cada um ao encontro do seu correspondente. Os tendões despontaram, a carne cresceu, a pele recobriu-os. O profeta voltou a profetizar e o espírito de vida soprou sobre aqueles ossos assim aperaltados, penetrou neles e eles reviveram, colocando-se de pé como se fossem um grande exército. E o que simbolizava tudo isso?
A ausência total de vida e de esperança do povo de Israel no exílio, a crise de identidade profunda que atravessava e a humilhação que sentia, faziam-no sentir mirrado, ressequido, abandonado. No entanto, apesar de parecer humanamente impossível devido à prepotência babilónica, a coisa iria mudar! O povo iria receber um novo sopro de vida, iria saltar daquele requietório e regressar para restaurar o seu país, na esperança de voltar a ser o que era, tal como aqueles ossos ressequidos agora reavivados. Perante tal desafio, havia exigências: teriam de assumir a responsabilidade pelo fracasso histórico de um sistema que se corrompeu, provocando o mal estar de todos; haveriam de entender que a simples reforma de um sistema corrompido não gera nenhuma sociedade nova, é sol de pouca dura, voltariam aos mesmos vícios; haveriam de assumir a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, alicerçada na liberdade responsável e na vida digna de todos e de cada um. Ezequiel, porém, foi ainda mais longe. Pegou em duas varas, uma a representar o Reino do Sul, Judá, e a outra a representar o Reino do Norte, Israel/Efraim. Segurou-as muito bem unidas na sua mão, de modo que simbolizassem, perante o povo, que a reunificação geopolítica e espiritual do povo iria acontecer e juntariam sinergias para bem do progresso e da paz (Ez 37).
Não é que Portugal esteja em semelhante requietório. Mas que os seus ossos precisam de um novo fôlego de vida, lá isso precisam. E tudo quanto seja feito para os reanimar é sempre bem vindo, mesmo que uns se esmerem e digam que tudo se está a fazer nesse sentido, e, outros, para encobrir que também são culpados da situação, nada de bom fisguem no que aqueles dizem e fazem. E vice-versa, pois claro! Tudo faz parte da dialética democrática. No entanto, se eu fosse alguém com patuá credível junto dos políticos, pedir-lhes-ia, com a persistência espelhada nas parábolas do Juiz iníquo (Lc 18,1-8) e do Amigo importuno (Lc 11, 5-8) que fizessem o favor de dar as mãos e de reunir todas as forças nesse sonho de promover o bem comum, delineando, conjuntamente, o melhor para o país. Não para unir o Norte e o Sul, pois as rivalidades que entre eles possam existir não significam divisão. São meros ciúmes de quem se ama, mesmo por entre rivalidades clubísticas, culturais e políticas. Seria para lhes pedir que essa coisa a que chamam Direita, Centro, Esquerda e mais as pontas de cada lado que sempre falam zangadas com o mundo e arredores, se reunissem e, de forma sinodal, planeassem, sem preconceitos nem interesses ideológicos, pessoais ou partidários, as áreas e linhas comuns de um Pacto de Regime ou de Estado, a serem doravante assumidas pelos governantes de cada turno. Quem melhor e mais rapidamente as concretizasse é que deveria merecer o voto do povo, o qual, com a parcimónia devida, até reconheceria que os talentosos tribunos se faziam valer, não pela insonsa e demagógica gritaria, mas pela beleza da obra feita. Acredito que os aplausos e a gratidão seriam bem mais sinceros e ajustados.
Em Dia de Todos os Fiéis Defuntos, é bom lembrar os mortos sem andar aos pontapés aos vivos. Se outros o não tivessem feito, bastaria Camões para nos convidar a enaltecer “Aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando" (C1,E2). Mas sem exagero! Sim, sem exagero, sem ter de chamar por Eça de Queirós para zurzir naqueles que, porventura, passassem o tempo a enaltecer o orgulho glorioso do passado para encobrir que eles próprios são “todos uns eunucos, uns tísicos, uns fadistas de trazer por casa!” (d’Os Maias, C.VI
). A morte física é inevitável, mas a memória e o reconhecimento público são quem resgata os patriotas de antanho, não para defesa de nacionalismos paralisantes, mas para estimulo dos presentes e futuros. Camões recorda e glorifica os heróis do passado e os que viriam a sê-lo. Não apenas os heróis individuais, também “o peito ilustre lusitano”, o herói coletivo (cf. C1,E3). É de presumir que o Conselho de Estado, nesse dia, faça memória dos heróis do passado, mas cuidará, sobretudo, não duvidamos, desse herói coletivo que sempre foi e é o povo português, o qual, apesar das vergastadas da vida e dos mimos das governanças, não desiste de lutar com valentia e garbo, mesmo que por entre alguns desatinos!

D. Antonino Dias
Caminha, 30-10-2026.

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