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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O luto de quem não quer perder

 


A vida é uma quase infinita sequência de perdas. Estamos condenados a perder quase tudo o que julgamos importante. O que é mesmo nosso, e que não perdemos nunca, é a nossa identidade. O que somos, apesar de tudo.

Posso negar que perdi, convencendo-me de que não perdi aquilo que já não tenho, mas que continuo a sentir como parte de mim. A verdade, porém, é que o perdi, embora continue a fazer parte de mim.

Posso indignar-me e tentar com violência reaver o que sinto que com injustiça me foi roubado. Nada consigo de volta a não ser perder as forças com que bato e grito. Preciso de força, muita, mas para encontrar em mim o sentido do caminho daqui para diante.

Posso tentar compreender o incompreensível, mas sem qualquer sucesso. Por mais que me esforce, jamais o meu entendimento descobrirá os porquês de tudo o que me acontece. Não é a razão que me levará para a frente.

Posso deixar-me cair e ficar, esgotado por tantas batalhas perdidas desta revolta profunda, mas também não será assim que terei de volta o que perdi e tanto desejo.

O passado é história e o futuro é mistério. Cada um de nós é uma espécie de ponte em movimento entre esses dois tempos.

O luto é um processo essencial e passa por aceitar que o passado é irrecuperável, por melhor ou pior que tenha sido, aceitando tanto o que recebemos como o que nos foi tirado.

A felicidade nasce das escolhas mais difíceis. Uma delas talvez seja decidir ser feliz apesar de todo o sofrimento passado, presente e o que ainda virá. Lutando todos os dias.

Quem não faz os seus lutos perde mais do que perdeu, porque, ao não aceitar as perdas como parte da sua história, arrisca-se a esquecer-se de quem é e a perder-se a si mesmo.

A fé, a esperança e o amor ensinam-nos a nunca desesperar, apesar de tudo.


 José Luís Nunes Martins



quarta-feira, 6 de julho de 2022

Se não fizeres luto…




A vida é feita de inúmeras perdas. Todos os dias o nosso caminho segue enquanto há algo que temos de deixar para trás. É duro viver, porque é difícil ter de perder. Certos dias, as perdas são enormes, quase sempre inesperadas.

O que se pode fazer face a uma perda? Ou nos adaptamos até reencontrarmos a plenitude na vida com o que nos resta, ou nos recusamos a aceitar uma vida sem isso que nos foi arrancado.

Luto é o tempo urgente e necessário que devemos viver após a perda de uma pessoa muito querida, a fim de que todos os momentos belos que partilhámos com ela se transformem em doces e suaves memórias… Um processo semelhante a uma espécie de gravidez, mas no sentido contrário: do mundo exterior para o interior.

Por vezes, na tentativa de reverter a perda, nega-se o luto, a vida passa a ser um lugar onde existe, persiste e cresce o agora vazio que não se aceita. Por mais força que se tenha no início, acaba por quebrar qualquer um… e chega o momento em que uma espécie de aflição tenta apoderar-se da alma.

Se olharmos para a questão com uma certa distância, compreendemos que temos duas opções: ou a pessoa aceita a perda e quer, apesar de tudo, construir um futuro, ou não aceita e recusa-se a olhar para diante, uma vez que a perda lhe pesa demasiado e, assim, sente a necessidade de viver como se fosse um castigo.

O luto é uma guerra que se passa longe dos olhares dos outros. No interior de quem acredita que o seu ente querido partiu do mundo exterior, mas permanece inteiro no seu coração.

Há pessoas ­­a quem a sua tristeza mais que profunda amordaça, impedindo-as de falar sobre essa sua dor, o que lhes provoca um sofrimento a dobrar. Alguns até estariam dispostos a falar, tivessem eles com quem o fazer…

O sofrimento é um sinal da existência de amor, só sofremos porque amamos. E se é o amor que causa o sofrimento, também é só ele que pode ser a sua cura.

Devemos aceitar as perdas, viver o sofrimento, sem nunca deixarmos de caminhar e de estar atentos a todas as coisas boas que os dias nos trazem. Por vezes também é tempo de chorar de alegria pelo que nos acontece e pelo que conseguimos.

Não te sentes à espera de que o passado te alcance, não te sentes à espera de que o presente se altere por causa da tua dor, não te sentes à espera de que o futuro te pegue ao colo.

Faz o teu caminho. Hoje.

José Luís Nunes Martins


domingo, 21 de junho de 2015

Papa Francisco: como não culpar Deus diante da morte de um ente querido





"A perda de um filho é como parar o tempo, onde passado e futuro não se distinguem mais"


O Papa Francisco explicou hoje, em sua catequese aos peregrinos, como viver o luto quando se enfrenta o falecimento de alguém muito querido.

A morte faz parte da vida, disse o Papa, mas quando se dá na família, é muito difícil vê-la como algo natural. Para os pais, perder o próprio filho é algo “desolador”, que contradiz a natureza elementar das relações que dão sentido à própria família. Francisco falou de sua experiência com os fiéis que participam da missa na Casa Santa Marta quando alguns pais, ao falarem da morte do próprio filho, têm “o olhar entristecido”.

“A morte toca e quando é um filho, toca profundamente”, disse. A perda de um filho é como parar o tempo, onde passado e futuro não se distinguem mais. Toda a família fica paralisada. O mesmo acontece para o menor que fica órfão e, com sofrimento, se pergunta quando voltará seu pai ou sua mãe.

“Nesses casos, a morte é como um buraco negro que se abre na vida das famílias e à qual não podemos dar qualquer explicação.” E, às vezes, acaba-se por culpar ou negar Deus. “Eu os entendo”, disse Francisco, porque se trata de uma grande dor.

Todavia, prosseguiu o Papa, a morte física tem “cúmplices”, que são até piores do que ela, como o ódio, a inveja, a soberba e a avareza. O pecado faz com que esta realidade seja ainda mais dolorosa e injusta.

“Pensemos na absurda ‘normalidade’ com a qual, em certos momentos e lugares, os eventos que acrescentam horror à morte são provocados pelo ódio e pela indiferença de outros seres humanos. O Senhor nos liberte de nos acostumarmo-nos a isso!”

Jesus nos ensina a não temer a morte, mas também a vivenciá-la de forma humana. Ele mesmo chorou e ficou turbado ao compartilhar o luto de uma família querida. A esperança nasce das palavras de Cristo à viúva que perdeu seu filho: “Jesus o restituiu à sua mãe”. “Esta é a nossa esperança, que o Senhor nos restituirá todos os nossos caros”, disse o Papa.

Se nos deixarmos amparar por esta fé, a experiência do luto pode gerar uma solidariedade mais forte dos elos familiares, uma nova fraternidade com as famílias que nascem e renascem na esperança. Esta fé nos protege seja do niilismo, seja das falsas consolações supersticiosas e nos confirma que a morte não tem a última palavra.

Por isso, é necessário que os pastores e todos os cristãos expressem de maneira mais concreta o sentido da fé junto às famílias em luto. E nos inspirar naquelas famílias que encontraram forças para perseverar na fé e no amor, testemunhando que o trabalho de amor de Deus é mais forte que a morte. “E lembremo-nos daquele gesto de Jesus, quando nos reencontraremos com os nossos caros e a morte será definitivamente derrotada.”


sources: RÁDIO VATICANO