segunda-feira, 9 de março de 2026

Dá-me essa água



“Morrer de sede ao pé da fonte”
Ditado popular

Somos terra seca.

Escolhemos um caminho árido.

Ansiamos viver num deserto.

Sentimos a desilusão e a tristeza…


Deus mima-nos como um Pai!

Tudo coloca ao nosso alcance.

Se acreditarmos que somos capazes, até de um rochedo sem vida brota água.


Mas, não temos a capacidade de acreditar sem medida.

Ser Esperança no mundo, passa por uma condição belíssima:

Não podemos enganar, nem mentir…

São as nossas obras que dão vida à Esperança,

e nem sempre abrimos o nosso coração à voz de Deus.

Então… somos terra seca, ressequida,

sem Esperança, nem Fé, onde morre a semente da caridade.


Uma dúvida que magoa vem ao nosso encontro e rega a semente do ódio:

«Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?»


Iniciamos conflitos e guerras, porque vivemos no local onde o outro não mora…

Será que a geografia é mais importante que o Amor?


Hoje, a Samaritana abandona as questões sem sentido e vem em nosso auxílio.

Traz um balde na mão e está destinada a fazer, de cada um de nós,

peregrinos de Esperança.


Regar o mundo com Paz.

Ser afável com todos, até com quem não merece.

Ser consciente de que gritar só é bom quando anunciamos que temos um Deus que nos salva,

que envia o Seu próprio Filho para ser Água Viva, Fonte inesgotável de Amor.


Dá-me essa água, Senhor.


Liliana Dinis

domingo, 8 de março de 2026

Dia da Mulher




A verdadeira "genialidade feminina" manifestou-se no Sim mais importante da história.

O Dia Internacional da Mulher, sob o olhar da fé católica, convida-nos a contemplar a dignidade feminina através daquela que é o modelo perfeito de humanidade: Maria Santíssima.
Enquanto o mundo foca em conquistas sociais e direitos necessários, a Igreja recorda-nos a "genialidade feminina" (termo de São João Paulo II) manifestada no Fiat de Nossa Senhora. Maria não foi apenas uma figura passiva; ela foi a mulher da coragem e da escuta, que ao dizer "sim", mudou o curso da história humana.
Neste dia, celebrar a mulher é reconhecer:

A Força na Entrega: Tal como Maria aos pés da Cruz, a mulher carrega uma capacidade única de permanecer, de sustentar a esperança onde outros desistem e de transformar o sofrimento em amor fecundo.

A Missão de Gerar Vida: Seja na maternidade biológica ou espiritual, a mulher reflete o acolhimento de Maria, transformando o mundo num lar e lembrando à humanidade a importância da ternura.

A Dignidade Redimida: Em Maria, a mulher é elevada à mais alta honra. Ela mostra que o verdadeiro empoderamento nasce da fidelidade a Deus e do serviço aos irmãos.

Que a exemplo de Maria, todas as mulheres encontrem na sua fé a força para serem luz na família e na sociedade, sendo sempre "mensageiras da paz e da vida".

“Se conhecêsseis o dom de Deus!”

 

https://www.youtube.com/watch?v=EDVDx_ImrZY



Estamos no terceiro domingo da Quaresma. Não é fácil nem isento de obstáculos o caminho que, através do deserto quaresmal, nos leva em direção à vida nova. Conseguiremos superar os obstáculos deste caminho de conversão e de renovação? A Palavra de Deus que escutamos no terceiro domingo da Quaresma deixa-nos uma indicação verdadeiramente reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.

A primeira leitura relembra-nos um dos momentos determinantes da caminhada dos hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede e afundado em dúvidas, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta bizarra dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do seu povo. Não se trata de um caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo enquanto este atravessa o deserto da história. Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar?

No Evangelho Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacob, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A samaritana mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer. Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer? Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descobertas com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida?

A segunda leitura não evoca o tema da água, como a primeira leitura e o Evangelho; mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao seu povo. Garante-nos que, sejam quais forem as nossas falhas e infidelidades, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, de forma gratuita e incondicional, a sua salvação. Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 7 de março de 2026

Sem amor aos pobres, a liturgia é vazia




Sem amor aos pobres, a liturgia é vazia

Podemos ter igrejas cheias.
Cânticos afinados.
Ritos impecáveis.
Incenso a subir bonito no ar.
Mas se não houver amor aos pobres e aos frágeis, tudo isso será apenas cenário.
Rituais belos por fora — vazios por dentro.
Sem o gesto do lava-pés nunca entenderemos a Eucaristia. Sem ajoelhar diante da dor do outro, ajoelhar no altar torna-se formalidade.
Uma Igreja que não visita os presos, que não se aproxima dos doentes, que não se inclina sobre os que falharam, pode ter muitas atividades — mas não será a Igreja de Jesus Cristo.
Não basta dizer “naquele tempo…”.
Não basta citar o Evangelho como memória distante. Não basta acumular documentos, doutrinas, reflexões eruditas.
Se o coração não arde, a fé arrefece.
Se a Palavra não muda a vida, torna-se discurso. Se a Missa não continua na rua, torna-se espetáculo.
Os discípulos não reconheceram Jesus numa teoria. Reconheceram-no à mesa, na partilha, na presença viva.
Mas a questão não é de palavras.
É de espírito.
A Palavra não foi dada para ficar confinada ao sagrado. Foi dada para transformar o profano.
Para entrar no trabalho, na política, na economia, na família. Para gerar justiça, solidariedade, misericórdia.
De que nos serve comungar, se não partilhamos?
De que nos serve rezar, se não perdoamos?
De que nos serve cantar “irmãos”, se mantemos distâncias e divisões?
O externo deve ser expressão do que amadureceu no coração.
Caso contrário, é máscara.
Deus está próximo quando a Palavra anima as ações.
Quando o altar se prolonga na rua.
Quando o culto se transforma em serviço.
Quando a fé se traduz em gestos concretos.
A Igreja de Jesus é peregrina, samaritana, hospitaleira.
É Igreja do perdão.
É Igreja em saída.
É Igreja que caminha com — e não acima de.
Não é a crença que nos define.
São os nossos atos.
Porque no fim, talvez Deus nos pergunte apenas isto:
Onde estavam os teus irmãos quando disseste que Me amavas?


Padre João Torres

sexta-feira, 6 de março de 2026

AS GUERRAS PREVENTIVAS CORREM O RISCO DE INCENDIAR O MUNDO



O cardeal Secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, falou à imprensa sobre a guerra no Oriente Médio. Nessa entrevista a Andrea Tornielli, ele fala como “as guerras preventivas correm o risco de incendiar o mundo”. Dado o seu interesse, e com a devida vénia, aqui a reproduzo:
Eminência, como está a viver esses momentos dramáticos?
Com grande pesar, pois os povos do Oriente Médio, incluindo as já frágeis comunidades cristãs, mergulharam novamente no horror da guerra, que brutalmente destrói vidas humanas, produz destruição e arrasta nações inteiras em espirais de violência com resultados incertos. No domingo passado, durante o Ângelus, o Papa falou de uma “tragédia de proporções enormes” e do risco de um “abismo irreparável”. São palavras mais do que eloquentes para descrever o momento que estamos a atravessar.
O que acha do ataque dos EUA e de Israel ao Irão?
Acredito que a paz e a segurança devem ser cultivadas e buscadas por meio das possibilidades oferecidas pela diplomacia, especialmente aquela exercida nos organismos multilaterais, onde os Estados têm a possibilidade de resolver os conflitos de maneira pacífica e mais justa. Após a Segunda Guerra Mundial, que causou aproximadamente 60 milhões de mortes, os pais fundadores, com a criação da Organização das Nações Unidas, quiseram poupar seus filhos dos horrores que eles tinham vivido. Por isso, na Carta da ONU, buscaram fornecer diretrizes precisas sobre a gestão de conflitos. Hoje, esses esforços parecem ter sido em vão. Não só isso, mas, como o Papa lembrou ao Corpo Diplomático no início do ano, "uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou grupos de aliados", e acredita-se que a paz pode ser buscada "pelas armas".
Quando se fala das causas de uma guerra, é complexo determinar quem está certo e quem está errado. O que é certo, porém, é que ela sempre produzirá vítimas e destruição, bem como efeitos devastadores sobre os civis. Por essa razão, a Santa Sé prefere enfatizar a necessidade de utilizar todos os instrumentos oferecidos pela diplomacia para resolver disputas entre Estados. A história já nos ensinou que somente a política, com o esforço da negociação e a atenção ao equilíbrio de interesses, pode aumentar a confiança entre os povos, promover o desenvolvimento e preservar a paz.
A justificação para o ataque foi impedir a realização
de novos mísseis, em suma, uma "guerra preventiva"...
Como enfatiza a Carta da ONU, o uso da força deve ser considerado apenas como último recurso, após o esgotamento de todos os instrumentos de diálogo político e diplomático, após cuidadosa avaliação dos limites da necessidade e da proporcionalidade, com base em avaliações rigorosas e razões bem fundamentadas, e sempre no âmbito de uma governança multilateral. Se aos Estados fosse reconhecido o direito à “guerra preventiva”, segundo critérios próprios e sem um quadro jurídico supranacional, o mundo inteiro correria o risco de se encontrar em chamas. É realmente preocupante este declínio do direito internacional: a justiça foi substituída pela força, a força do direito foi substituída pelo direito da força, com a convicção de que a paz só pode nascer depois de o inimigo ter sido aniquilado.
Que peso têm as enormes manifestações de rua das
últimas semanas, brutalmente reprimidas no Irão?
Podem ser esquecidas?
Certamente que não; isso também foi motivo de profunda preocupação. As aspirações dos povos devem ser levadas em consideração e garantidas dentro de um quadro jurídico de uma sociedade que assegura a todos a liberdade e a expressão pública de suas ideias, e isso também se aplica ao querido povo iraniano. Ao mesmo tempo, podemos nos perguntar se realmente se acredita que a solução possa vir através do lançamento de mísseis e bombas.
Por que é que o direito internacional e a diplomacia
estão a passar por esse declínio hoje?
A consciência de que o bem comum realmente beneficia a todos — isto é, o bem do outro também é um bem para mim — se dissipou, e a justiça, a prosperidade e a segurança se realizam na medida em que todos podem beneficiar delas. Esse princípio fundamenta a criação do sistema multilateral ou de um projeto ambicioso, como o da União Europeia. Essa consciência se dissipou, alimentando a busca pelo interesse próprio.
Isso tem outra consequência: o sistema da diplomacia multilateral nas relações entre os Estados atravessa uma profunda crise, devido, entre outros fatores, pela desconfiança dos Estados em relação aos vínculos legais que limitam sua ação. Esse comportamento representa a outra face da vontade de poder: o desejo de agir livremente, de impor a própria ordem aos outros, evitando o árduo, porém nobre, trabalho da política, composto de discussões, negociações, de vantagens pessoais e concessões aos outros. Um multipolarismo marcado pela primazia do poder e pela autorreferencialidade está-se a afirmar de forma perigosa. Infelizmente, princípios como a autodeterminação dos povos, a soberania territorial e as normas que regem a própria guerra (jus in bello) estão a ser questionados. Todo o aparato construído pelo direito internacional em áreas como desarmamento, cooperação para o desenvolvimento, respeito aos direitos fundamentais, propriedade intelectual, trocas e trânsitos comerciais está a ser questionado e gradualmente arquivado. E, acima de tudo, parece ter tido uma perda de consciência do que Immanuel Kant escreveu em 1795: "Uma violação do direito que ocorre numa parte da Terra é sentida em todos os lugares". Ainda mais grave, em alguns aspetos, é invocar o direito internacional para atender às próprias conveniências.
A que se refere?
Refiro-me ao fato de haver casos em que a Comunidade internacional se indigna e toma medidas, e casos em que não o faz, ou o faz muito menos, dando a impressão de que há violações do direito que devem ser punidas e outras que devem ser toleradas, vítimas civis que devem ser deploradas e outras que devem ser consideradas "danos colaterais". Não há mortes de primeira e segunda classe, nem há pessoas que tenham um direito maior de viver do que outras simplesmente por terem nascido num continente em vez de outro ou num determinado país. Gostaria de sublinhar a importância do direito internacional humanitário, cujo respeito não pode depender das circunstâncias ou de interesses militares e estratégicos. A Santa Sé reitera com veemência a sua condenação de toda forma de envolvimento de civis e estruturas civis, como residências, escolas, hospitais e locais de culto, em operações militares, e pede para que o princípio da inviolabilidade da dignidade humana e da sacralidade da vida seja sempre protegido.
Quais as perspetivas de curto prazo que o senhor vê para esta nova crise?
Espero e rezo para que o apelo à responsabilidade feito pelo Papa Leão XIV no último domingo seja ouvido e possa tocar os corações de quem está a tomar decisões. Espero que o barulho das armas cesse em breve e que se retorne às negociações. Não se deve esvaziar o sentido das negociações: é essencial conceder o tempo necessário para que se alcancem resultados concretos, trabalhando com paciência e determinação. Além disso, devemos reconhecer que a ordem internacional mudou profundamente em relação àquela concebida oitenta anos atrás, com a criação da ONU. Sem nostalgia do passado, é necessário combater toda a deslegitimação das instituições internacionais e promover a consolidação de normas supranacionais que ajudem os Estados a resolver disputas pacificamente, por meio da diplomacia e da política.
Que esperança há diante de tudo isso?
Os cristãos têm esperança porque confiam no Deus que se fez Homem, que no Getsémani ordenou a Pedro que embainhasse a espada e que na Cruz experimentou em primeira mão o horror da violência cega e insensata. Eles também têm esperança porque, apesar das guerras, das destruições, das incertezas e de um sentimento generalizado de desorientação, de muitas partes do mundo continuam a levantar-se vozes que clamam por paz e justiça. Os nossos povos pedem paz! Esse apelo deveria impactar governos e todos aqueles que trabalham no contexto das relações internacionais, levando-os a multiplicar os esforços pela paz”.
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D, Antonino Dias
Caminha, 06-03-2026.

Quando o coração decide transformar o mundo



Vivemos cansados.
Cansados de más notícias.
Cansados de discussões intermináveis.
Cansados de abrir o telemóvel e sermos invadidos por desgraças, escândalos e banalidades.
Lamenta-se — e com razão — que os grandes meios de comunicação se alimentem quase só da tragédia e do ruído. Mas talvez a verdadeira revolução não esteja em queixar-nos mais.
Talvez esteja em escolher diferente.
Fazer jejum.
Jejum de imagens que nos endurecem.
Jejum de indignação permanente.
Jejum de comentários que não constroem nada.
E, no lugar disso, redescobrir o que é simples e verdadeiro.
Há vida a correr longe do barulho.
Na mãe que acorda cedo e prepara o pequeno-almoço em silêncio.
No pai que regressa cansado, mas ainda encontra forças para brincar com o filho.
Na vizinha que leva sopa ao idoso do terceiro andar.
No voluntário que visita um doente que já quase ninguém visita.
É aí que a vida vale mais.
Precisamos de um tempo de transfiguração.
Da memória — para deixar de viver apenas do que nos feriu.
Do presente — para não o desperdiçar na superficialidade.
Da profecia — para acreditar que o futuro pode ser diferente se começarmos agora.
Só há pessoas a transformar.
Não existem pessoas acabadas.
Não existem histórias fechadas.
Não existem corações definitivamente endurecidos.
O Mestre Eckhart falava de uma mística da transformação.
Não uma espiritualidade de fuga, mas de metamorfose permanente.
De deixar que a vida, com as suas alegrias e feridas, nos vá moldando por dentro.
Transfigurar não é negar a realidade.
É iluminá-la.
É olhar para o que dói e perguntar:
“Como posso tornar isto mais humano?”
Talvez o mundo não precise apenas de opiniões fortes.
Precise de pessoas transformadas.
Gente que escolha a natureza em vez do ruído.
Boa música em vez do grito.
Leitura em vez da distração vazia.
Oração em vez da ansiedade.
Partilha em vez de indiferença.
Não se muda o mundo com discursos inflamados.
Muda-se com pequenas fidelidades diárias.
Com presença.
Com cuidado.
Com gestos discretos que ninguém noticia — mas que sustentam tudo.
Há uma vida que corre silenciosa e fecunda.
É essa que mais vale.
E talvez a verdadeira transfiguração comece quando decidimos ser melhores do que o ambiente à nossa volta. Quando escolhemos transformar, em vez de apenas reagir.
O mundo precisa de pessoas luminosas.
E a luz começa sempre dentro.




Padre João Torres

quinta-feira, 5 de março de 2026

Sobre fé




Correm tempos tão estranhos, tão incertos, tão intermináveis que parecem, até, pôr em causa tudo aquilo em que acreditamos. Mas a dúvida, que tantas vezes nos assola, vem só confirmar que somos humanos e que existem compreensões que vão além de nós mesmos. Dizem que a fé move montanhas e certamente moverá. Tenho fé, mas todos os dias peço para a aumentar. Por vezes sinto-a leve como uma brisa e outras forte como o vento, mas sinto que a tenho aqui e espero que para sempre. Li, algures, uma frase que dizia " enquanto houver 1% de chance, terei 99% de fé" e é mesmo isto que eu desejo para mim e para o mundo.


Lucília Miranda

quarta-feira, 4 de março de 2026

É pouco o que podemos controlar



Vivemos como se a vida dependesse de nós para prosseguir ou para acontecer como acontece.

Vivemos como se fôssemos eternos e como se os dias que nos seguem fossem garantidos. Para sempre respiráveis e para sempre à nossa disposição.

Esquecemo-nos, frequentemente, da nossa pequenez. Do tanto que sucede apesar de tudo aquilo que somos e desejamos.

Na verdade, é pouquíssimo o que podemos controlar. E a maioria das nossas sensações mais negativas surgem, precisamente, desta nossa permanente tentativa. Talvez não apenas o querer controlar, mas também a nossa vontade de desejar que a realidade se apresente diferente daquilo que é.

Claro que é inevitável que assim seja. A nossa ilusão de ter o controlo do que acontece também nos oferece uma sensação de segurança e de comando. No entanto, é uma sensação que não passa disso. De uma ilusão. E esse véu cai de cada vez que a vida nos finta com imprevistos, doenças, atitudes inesperadas de alguém amado, acidentes, fatalidades, tempestades ou outros distúrbios que tais.

Como viver mais mansamente, então? Perante aquilo que somos e perante os outros?

Recordar-nos, diariamente, que estamos a ser guiados por Quem sabe. E que, não podendo determinar quase nada do que acontece, podemos ainda assumir a nossa responsabilidade pelo que depende de nós e do nosso círculo individual ou comunitário. Podemos trabalhar na forma como nos sentimos perante o tanto que nos acontece e desarruma.

Mais: podemos ter a clara certeza de que os vários eventos que nos atropelam, por muito difíceis que sejam, terão sempre algo importante para nos ensinar ou para revelar.

Saibamos nós ver e aprender.

Saibamos nós querer ver e querer aprender.


Marta Arrais

terça-feira, 3 de março de 2026

NÃO TEMAIS



Foi há muito, muito tempo:
há cerca de 100 milhões de anos, algumas traças trocaram a noite pelo dia
e começaram a voar à luz do sol – foi a partir daí que todas as borboletas se desenvolveram.
Cláudia Carvalho Silva [in público 20/05/2023]



Quantas vezes, na tua vida, pensaste em mudar de terra?

Em mudar de trabalho?

Em mudar de família?

Em mudar de religião?

Em mudar a tua vida?


Já reparaste quando é que anseias essas mudanças?

Sempre que há falta de luz!

Sempre que perdes a luz!

Sempre que apagas a luz!

Sempre que não vês a luz!

Sempre que não és luz!


«O seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.»



Jesus transfigurou-se!



Hoje, a palavra Transfiguração bate à tua porta.

O convite não é para deixares entrar…

É preciso pegar na mochila e subir a montanha!



Lá no alto, onde pensamos que estamos perto do Senhor que nos chama e nos dá a VIDA,

acendemos a chama da Fé… carregamos baterias!

MAS, não podemos perder o verdadeiro sentido da nossa transfiguração.

Somos FILHOS de DEUS! Muito… muito amados.

E… ELE ama-nos como somos, porque foi O Senhor Misericordioso quem nos criou assim!




Que esta Filiação Divina incendeie no teu coração a audácia de abrir asas e voar!

Não estás cansada de ser traça?

Revela-Te como Luz e faz jus à fidelidade que Deus tem para contigo!

Vai sem medo e não mudes quem és!

Transfigura-te...


Liliana Dinis,

segunda-feira, 2 de março de 2026

Levanta-te… vai.



Levanta-te… vai.

Quem não tem medo nesta vida? Convivemos com muitos medos todos os dias. O medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor e seca as fontes da esperança; ele acanha-nos e enterra-nos na acomodação mesquinha.
É necessário que a gente se levante e vá ao encontro da vida.
Os discípulos de Jesus sobem para a montanha… E ali, no monte, Jesus é transfigurado. Revela a sua natureza profunda, a sua verdadeira identidade.
Ele não tira um traje barato sob o qual estivesse escondido. Não. É o olhar dos discípulos que muda. Porque a beleza, como o enamoramento, como a fé, está no nosso modo de ver.
Podemos estar com Jesus toda a nossa vida, associar-nos a Ele, crer e segui-Lo. Mas enquanto o nosso olhar interior não se render à sua beleza, nunca seremos definitivamente marcados por Ele.
Pedro fica maravilhado: a beleza encheu o seu coração. No Tabor descobrimos que somos amados no Filho. Jesus é o Amado. E só o amor muda, converte, dá asas.
Os discípulos caem por terra, cedem ao medo. E Jesus encoraja-os:
“Levantai-vos, não tenhais medo.”
Como quem diz: é preciso abandonar a planície da mediocridade, onde a névoa de palavras e pensamentos violentos nos assola e mancha o ar. O Deus belo, misterioso e presente, impele-nos a partir, a subir, a crescer.
Levanta-te… vai.


Padre João Torres

domingo, 1 de março de 2026

Revitalizar a FÉ

 

https://www.youtube.com/watch?v=yaPkMywv2n8&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f


Na segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna.

A primeira leitura coloca diante dos nossos olhos aquele que a catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia os crentes de todas as épocas. O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida?

No Evangelho Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém? O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?

Na segunda leitura, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que Deus conta connosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens.Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Converter-se não significa privar-se, mas libertar-se!




O tempo voa, e muitas vezes sentimo-nos sem fôlego quando chegamos aos nossos compromissos agendados. Este ano não é exceção, e foi assim que entramos na Quaresma.

A Quaresma é um tempo poderoso de conversão do coração, da mente e de toda a pessoa, de desprendimento das nossas paixões. Um tempo para viver com calma, mais consciente e mais altruísta.

Por isso o Jejum. O jejum, obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, não é uma prática ascética com o objetivo de obter qualquer coisa ou favor de Deus. Pelo contrário, os cristãos jejuam porque Deus já nos deu tudo.

Retirar a comida da mesa serve, sobretudo, para nos examinarmos e percebermos que somos habitados por outras fomes e necessidades que muitas vezes sufocamos com o consumo material e com a nossa pressa habitual.

E nada tem a ver com a obtenção de um corpo escultural. O jejum quaresmal visa o fortalecimento do espírito, enquanto a dieta visa o emagrecimento do corpo. Existem duas perspetivas, uma interna e outra externa. Uma diz respeito à nossa relação com Deus, a outra à imagem que desejamos deixar nos outros.

A Quaresma não exige necessariamente um aumento da quantidade de orações, mas sim uma melhoria da sua qualidade.

A oração deve ser um trabalho interior sério que dá mais vida à existência, e não uma fuga à realidade. Este dinamismo interior encontra a sua realização natural na caridade concreta.

«Se o jejum nos liberta dos nossos apetites e a oração nos expõe à voz de Deus, o resultado é um coração mais generoso, impelido a partilhar quem somos e o que temos com os outros.» (Frei Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia.)

Jejuar é afirmar que podemos viver do essencial, que o homem não vive apenas de pão e de bens materiais, por mais necessários que sejam, mas tem a liberdade de não equiparar a felicidade à posse de tudo.

Renunciar a alimentos desnecessários e à acumulação de bens não é um fim em si mesmo, nem é prova de domínio pessoal, como poderia ser para um atleta. É, antes, um caminho para regressar ao Senhor, para viver em amor por Ele e pelos irmãos.

«Converter-se durante a Quaresma não significa privar-se, mas libertar-se». (Cardeal Matteo Maria Zuppi


Paulo Victória


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

E que tal um empurrãozinho?



Já sentiste que gostavas que te empurrassem em vez de seres tu a empurrar?

Não te cansas? Não te cansas de bater às portas, de procurar, de perguntar e parecer que as coisas não acontecem?

Eu sim!

Parece que é tudo arrancado a ferros e que as conquistas que temos, aparentam ser naturais, mas são fruto de muito trabalho e luta. Gostava que certas coisas fossem mais fáceis de conseguir.

Queres um emprego melhor e até tens muitos amigos mas…parece que não estão na hora certa nem no lugar exato.
Queres uma oportunidade de mostrar o que sabes, mas parece que só tu é que vês e tens de lutar para ter “voz, ter vez, lugar”.
Queres marcar um encontro, mas as pessoas não têm tempo, vontade ou o que quiserem e tens de insistir e quase pedir para teres um pouco de atenção.

Parece que tudo é difícil ao ponto de querer gritar de frustração, ou, por outro lado baixar os braços de desânimo.

De vez em quando sabe bem quando algumas coisas nos aparecem como numa bandeja. Que nos surjam oportunidades dignas, que nos façam propostas justas, que nos reconheçam pelo valor que temos e não só pelo valor que lhes poderemos dar.

Andamos tão distraídos com o nosso umbigo que também nos esquecemos de dar aquele “empurrãozinho” a alguém. Uma palavra de ânimo, uma mensagem, uma recomendação ou uma sugestão que sabe a empurrão e sabe tão bem!

Mas hoje, hoje estou, cansada de empurrar… amanhã… amanhã volto!

E tu, amiga, que empurrão sentes que precisas de ter?


Raquel Rodrigues

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

No meio de mim, estás tu





Dentro do meu coração, estás tu. Acredito que, dentro do teu coração, esteja eu. Em cada um de nós está também Deus, porque nos ama. E, do mesmo modo, nós estamos no coração de Deus.

O pedaço de Deus que está em mim também vai quando me dou a alguém. Dou o que sou, o que tenho e o que há de mais profundo em mim.

Se sou amado por alguém, essa pessoa dá-se a mim, e eu fico com um pedaço do seu coração no meu. Depois, quando amo alguém, entrego-lhe um pedaço do meu coração, com tudo o que nele habita.

O meu pai amou-me, deu-se muito a mim, tanto que eu também sou ele, muito. Quando amo alguém, é também o meu pai que ama, porque, apesar de já não estar neste mundo, vive, bem vivo, dentro de mim e vai também quando entrego o meu coração.

Morrer é levar um pouco de todos os que nos amaram, mas também é continuar a viver naqueles que guardam em si o que lhes demos de nós.

Importa amar e abrir o nosso coração ao amor do outro. O preço é alto: temos de sofrer, porque nem sempre seremos bem recebidos e nem todos aqueles a quem abrimos o coração nos querem fazer bem.

A verdade é que também nós, muitas vezes, por razões e emoções confusas, não aceitamos o amor de todos, nem a todos queremos dar o melhor de nós.

Só com amor se perdoa. Perdoar é uma das formas mais sublimes de amar. No mais profundo de mim estão os perdões. Os teus e os de quem, como tu, me amou a esse ponto!


José Luís Nunes Martins


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Gestos que salvam




Há gestos que não pesam, que não fazem barulho ou fogo-de-artifício, mas que ficam. Tatuam-se em nós. E têm o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

Um abraço que chega como refúgio e que demora o tempo certo para o nosso coração serenar.

Uma mão que se dá como quem dá o coração: com a certeza de que, aconteça o que acontecer, vai estar sempre perto de nós.

Um olhar que nos encontra e que vê tudo o que somos, mesmo quando nós nos perdemos.

Um sorriso tão breve e tão capaz de nos arrebatar para sempre.

Uma palavra que nos conforta e um silêncio que abraça (e que escuta) o nosso coração.

Um “como estás?” que se importa e que quer escutar, de verdade, a nossa resposta.

Uma mensagem só para nos mostrar que se lembra de nós, só para nos fazer sorrir.

Uma companhia que parece que nos segura a alma, que faz tudo melhorar, só porque está ali.

Alguém que nos quer bem e que nos faz sempre sentir isso, mesmo sem ser preciso dizer.

Um pequeno gesto de bondade que ilumina o nosso dia inteiro e que nos inunda o coração de esperança.

É aí. É aí que se escondem as coisas mais bonitas, é aí que acontecem os maiores milagres. É aí que o nosso coração é tocado para sempre. Nesses pequenos gestos que são só o amor a abraçar-nos. E que têm sempre o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

É isso, o amor.

Esse sopro invisível que passa e que nos envolve como o abraço que precisamos, o colo que nos falta, o refúgio que procuramos. E que tem sempre o dom de nos salvar.

Como se fosse o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

E é.


Daniela Barreira


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Escolhe a Vida. Escolhe Amar Mais.





“O que é bom… ou é pecado ou engorda.”
Muita gente pensa o mesmo da fé. Que ser cristão é viver limitado.
Que Deus proíbe o que dá prazer. Que a religião é uma lista de “nãos”.
Mas deixa-me dizer-te uma coisa: isso não é cristianismo.
Deus não impõe. Deus propõe.
“Se quiseres, guardarás os mandamentos.” Se quiseres.
Diante de ti estão a vida e a morte. E Deus respeita-te tanto
que te deixa escolher.
Os mandamentos não são uma prisão.
São proteção. São mapa. São caminho para uma vida maior.
Jesus vai mais fundo. Ele não quer o mínimo.
Ele quer o máximo do amor. “Não matarás.”
E tu pensas: “Eu nunca matei ninguém.”
Mas já feriste alguém com palavras? Já destruíste alguém com desprezo?
Já espalhaste um boato? Já insultaste no silêncio do coração?
Pode-se matar sem tocar. Pode-se matar com a língua.
Com a indiferença. Com a humilhação.
Depois, Jesus fala do adultério. E vai à raiz: ao olhar. À intenção.
Ao coração. O outro não é objeto. Não é consumo. Não é posse.
É pessoa. É mistério. É dom.
Se não cuidas do teu olhar, o teu coração adoece.
E o que entra no coração acaba por moldar a tua vida.
E depois: “Sim, sim. Não, não.” Sem “nim”.
Sem duplicidade. Sem meias-verdades. Num mundo cheio de aparências,
Jesus chama-te à autenticidade. Não à perfeição. Mas à verdade.
Escolhe o que te faz crescer. Escolhe o que constrói. Escolhe o que dá vida.
E vais descobrir uma coisa surpreendente: O que é verdadeiramente bom
não é pecado nem engorda — dá vida.

Padre João Torres

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando largo, descubro quem sou!



Não sou os nomes que me deram,
os cargos que ocupo,
as histórias que aprendi a contar sobre mim...
Sou um silêncio vivo.
Uma presença suave.
Algo que respira antes das palavras.

Não sou as opiniões.
Não sou as crenças herdadas, nem os medos aprendidos.

Sou o espaço onde tudo acontece.
Sou o olhar por trás dos olhos.
Sou o sentir antes do pensamento.
Sou o intervalo entre uma respiração e outra.

Quando deixo cair as máscaras,
descubro que não preciso provar nada.Não preciso chegar a lugar algum. Já estou.

Há em mim uma quietude antiga,
uma inteligência silenciosa,
que sabe que o coração bate sem pedir permissão à mente.

A minha alma não grita.
Ela sussurra.
Ela vive nos momentos simples e sei que volto para mim, não quando adiciono, mas quando retiro.

Retiro camadas.
Retiro expectativas.
Retiro identidades.
Até restar apenas presença.

E nessa presença,
descubro que nunca estive perdida;
apenas distraída do essencial.

A vida insiste em mostrar-me a beleza de toda a aprendizagem. Descubro uma presença maior que me acompanha: entrego, confio e deixo que o divino permaneça em mim.

Boa semana!


Carla Correia

domingo, 22 de fevereiro de 2026

QUARESMA: Tempo de conversão e de renovação

 

https://www.youtube.com/watch?v=QOjhyHXGVS4



No início do caminho quaresmal, a liturgia convida-nos a repensar as nossas certezas, as nossas opções, os nossos valores. Tempo de conversão e de renovação, a Quaresma é o momento favorável para nos reaproximarmos de Deus. É em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a fonte da vida verdadeira.

Na primeira leitura a catequese de Israel esboça, em grandes linhas, o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Deus criou-nos para a felicidade e mostrou-nos como viver para alcançar a vida verdadeira. Contudo, enquanto seres livres, temos de ser nós a fazer a nossa opção fundamental. Se decidirmos abraçar as indicações de Deus, conheceremos uma felicidade sem limites e uma plena realização; mas, se optarmos por dar ouvidos à tentação do egoísmo, da autossuficiência, da prepotência, da ganância, viveremos rodeados de coisas efémeras, vazias, que nunca saciarão plenamente a nossa sede de felicidade.De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia?

Na segunda leitura
, o apóstolo Paulo coloca diante de nós dois exemplos, dois modelos de vida, dois homens: Adão e Jesus. Adão representa o homem que optou por ignorar as propostas de Deus e decidir, por ele próprio os caminhos que deveria percorrer para se realizar plenamente; Jesus é o homem que decidiu escutar as indicações de Deus, obedecer aos projetos de Deus, percorrer o caminho que Deus Lhe indicava, mesmo se esse caminho tivesse de passar pela cruz. A desobediência de Adão trouxe ao mundo egoísmo, sofrimento e morte; a obediência de Jesus tornou-se, para o mundo e para todos os homens, uma fonte inesgotável e amor, de graça e de vida.Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer?

No Evangelho, o Evangelista Mateus propõe-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Ele recusou sempre as propostas e os valores que punham em causa o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Para Jesus, os valores de Deus tiveram sempre primazia sobre os bens materiais, a embriaguez oferecida pelo êxito fácil, a sede de poder. Aos seus discípulos Jesus pede que sigam um caminho semelhante. Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Festival Terras sem Sombra- Arronches


 

Entre a esperança e o desespero.



A palavra central destes tempos é a Esperança como atitude que qualquer cristão deve cultivar, a par da virtude da fé e da caridade. Mas o que é isto de ter Esperança????

Esta esperança cristã “que não nos engana” põe-nos à prova muitas vezes quebrando a nossa confiança e levando-nos, algumas vezes, muito perto do desespero.

Vou ser muito franca, é muito difícil dar razões para a Esperança quando tu estás numa situação difícil. Quando tens um problema que não consegues resolver, uma doença, instabilidade económica ou qualquer outra coisa que te perdura no tempo e que demora a resolver, diz-me: como mantemos acesa a luz da Esperança?

Quando rezamos, pedimos, falamos e tentamos manter a dignidade de sermos a nossa melhor versão de nós mesmos e mesmo assim sentimos que nunca é a nossa vez de termos o sucesso e a tranquilidade que tanto gostaríamos, diz-me: como mantemos a luz da Esperança?

Não falo em situações esporádicas, nem de fácil resolução, mas de processos que duram mais tempo do que o que gostaríamos e nos testa a virtude da esperança. Rezamos, confiamos e esperamos que algo mude e se transforme, mas parece difícil! Começa a surgir a nuvem do desânimo e perguntamos: Senhor, então e eu?

É que a Esperança deve implicar a concretização. Quando Esperas, sabes o que esperas, desejas o que esperas e sabes que a Espera acaba com o cumprimento do propósito que te fez esperar. Certo? Mesmo que o resultado final não seja o esperado, precisamos de fechar esse ciclo e criar novos projetos, começar outra Espera.

Precisamos de sentir entusiasmo e alegria, mas às vezes a nossa Esperança esvai-se pois cansamo-nos de acreditar no bom senso, nos amigos que parecem desistir de nós e até em nós mesmos. A linha torna-se muito ténue e sentes-te defraudada…mas sabes amiga, a tua espera pode nem ter valido a pena, mas a Esperança Cristã, essa vale! No entanto, acredito que a Esperança tem de se materializar em atos de amor concretos sob pena de ser apenas mais uma palavra “que leva o vento” e de parecermos vendedores a algo em que não acreditamos. Haja sinais concretos de Esperança.


E tu, amiga, como vais materializar a Esperança nos outros?


Raquel Rodrigues

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

‘DE ANDARILHOS SEM RUMO A SENTINELAS VIGILANTES’



Este mundo admirável tem mesmo razões para estar agoniado! Corrupção de snobs, príncipes, líderes e ‘meninos’ bem, ambições imperialistas, promoção do caos, desrespeito do Direito assumido, sabotagens provocadoras, ciberataques, apagões, desinformação, desprezo, ódios, intrigas, libertinagem, escândalos, racismo, instabilidade, discursos gritados, insonsos e crispados, autorreferencialidade, violência familiar e social, banalização do respeito mútuo, guerras intermináveis e outras a espreitar, mortes sem fim...
Que bom seria se o avanço das ciências e das artes, da educação e do bom senso, das sensibilidades e dos gostos contribuíssem, sim, para fazer surgir uma natural e comum urbanidade e uma nova ordem política, social e económica, que servisse cada vez mais e melhor, que permitisse afirmar e desenvolver a dignidade própria de cada pessoa, de cada grupo, de toda a comunidade humana, privilegiando a cultura da paz e da justiça, da solidariedade e da fraternidade, da diversidade na coesão!
Quando o homem se enche de nove horas pelo que tem, produz e desenvolve, julgando ter o seu deus na barriga; quando, deslumbrado, deixa trepar aos pirolitos que o importante é ter poder e em quem mandar, nem que seja numa cabra; quando, seja lá pelos meios que for, alcança esse tal poder, facilmente se esquece de onde vem e para onde vai. Logo descarrila para becos sombrios e insalubres, optando por uma vida sem rumo nem limites para desgraça de si próprio e de muitos. Mui rapidinho, logo se confirma a monumental sabedoria do povo: “se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão! Será muito pior que um macaco numa loja recheada de louça! Muito pior que uma raposa faminta num galinheiro abastecido, sempre com mais olhos que barriga, pois até mata mais do que come! A História da humanidade, se é rica em tais exemplos, não o é menos em amnésias sobre essas realidades. Logo esquece o mal estar e os sacrifícios que passou, teimando em voltar ao mesmo sítio ou situação, apanhando ainda mais e com mais força. A sua memória é muito mais que curta, é curtíssima, é memória de peixe dourado! No entanto, mesmo que o homem desconfie dos outros homens, queira dominá-los e os faça sofrer, mesmo que até desconfie do próprio Deus, Deus, porém, na sua paciência infinita, não lhe tira o tapete de debaixo dos pés nem o despede, continua a acreditar nele e na sua liberdade. Deseja que cada um seja feliz e a cada um veio dizer que ele, o homem, do que mais precisa é de Salvação. Foi por causa da Salvação do homem que Jesus, num gesto de amor de Deus Pai para connosco, veio até nós e por nós se ofereceu. Amou-nos até ao fim, na cruz! Salvou-nos e quer que todos nos salvemos e sejamos, desde já, cidadãos do seu Reino de Justiça, de amor e de paz, onde tem preparado para aqueles que o amam o que nem sequer conseguimos imaginar (cf. 1Cor 2,9).
Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia, no passado Advento afirmava que, para isso, não podemos ser “andarilhos sem rumo”, mas “sentinelas que, na noite do mundo, mantêm humildemente a sua fé”. A humanidade não deveria esquecer "a necessidade da Salvação”. Não deveria preocupar-se tanto em cuidar as aparências da sua imagem. Não deveria diminuir a radicalidade do Evangelho nem ignorar “a direção para a qual o Reino de Deus continua a mover-se dentro da história”. Não deveria desprezar a importância desse “dom da Salvação universal que a Igreja humildemente celebra e oferece”. A Humanidade não quer mesmo entender!
E ninguém está isento ou acima deste jeito contumaz da humanidade. É por isso que a Quaresma é tempo de avaliação e discernimento. É contraproducente reduzir a fé a uma mera ética, esvaziando-a da sua dimensão transcendental, do seu encontro com Cristo, do viver em graça, permanecendo no pecado. É desaconselhado reduzir a liturgia em que se participa a uma simples cerimónia, despida de ato de culto e de santificação própria, sendo apenas apreciada e aplaudida como um mero show, à qual se assiste sem se participar, ou contra ela se vocifera porque foi uma seca quando a seca pode estar dentro de quem assim reclama. É contraindicado reduzir a vida cristã a moralismos, a um conjunto de regras, proibições e comportamentos alicerçados mais no fazer do que no ser, mais no cumprimento farisaico do que na transformação interior pela graça, pensando que os outros, os não cumpridores, é que têm de bater com a mão no peito. É inútil haver admiradores de quem pratica a caridade, se, também por esse testemunho, tais admiradores não são capazes de levar as mãos aos próprios bolsos para também partilharem com os pobres ou causas nobres. A caminhada quaresmal, a conversão, pede a renovação constante da própria vida.
Esta renovação quaresmal passa:
--- Pela escuta da Palavra de Deus, pois há “um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza”.
--- Pela oração, alicerce da conversão, da intimidade com Deus, da resistência ao pecado, da preparação para a Páscoa.
--- Pelo jejum, abstinência e outras formas de privação, as quais constituem “uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra” e a pô-la em prática, inclusive, evitando o desperdício de energia, água e alimentos, e cultivando a delicadeza na linguagem: “na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs”.
--- Pela esmola, fruto da generosidade, do jejum, da abstinência e doutras privações que se fazem para partilhar com os pobres ou com outras causas nobres, sem esquecer que a melhor esmola é dar-se.

D.Antonino Dias
Caminha, 20-02-2026.

Somos pobres de amor



Quem de entre nós se reconhece como carente, como mendigo da atenção e do amor do outro?

É muito mais comum encontrar pessoas que julgam bastar-se a si mesmas, que dizem amar os outros e amar-se a si próprias, sem assumirem a falta de serem amadas.

A miséria de precisar do amor do outro é algo que faz parte da nossa natureza e é como uma força que nos aponta o caminho da felicidade. Se não me sentir amado, jamais serei feliz. Por muito que ame.

Claro que ninguém se ama a si mesmo. Isso é uma contradição, um egoísmo com um nome agradável ao ouvido. Quem se dá a si mesmo não se dá a mais ninguém, até porque nunca se dará por satisfeito: é como beber água salgada para matar a sede. Amar é ser um meio para a felicidade de um outro, diferente de mim, construindo, em comunhão, algo que nenhum de nós alcançará sozinho.

Posso e devo cuidar de mim antes de me entregar a alguém, não por amor a mim, mas por amor ao outro.

Para ser amado preciso de ser humilde, para me abrir a esse bem que me chega de fora. Os orgulhosos não são felizes, também porque não se deixam amar, talvez por se julgarem acima dessa necessidade.

O que os egoístas e os orgulhosos não sabem é que, sem amar e ser amado, nunca ninguém foi feliz.

É essencial que cada um de nós estenda as mãos do seu coração e, com humildade, reconheça o amor de quantos nos amam. Alguns bem diante de nós, outros a partir de onde não podemos ver… mas podemos sentir.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

E tu, que lugar ocupas no mundo?




Esta pergunta é em primeiro lugar para mim própria porque, se calhar, não procuro uma resposta tantas vezes quanto deveria!

É que tantas vezes nos limitamos à nossa pequenina existência, ao nosso mundinho que preenche um dia a seguir a outro, com as nossas questões e inquietudes, com a nossa rotina, com o nosso núcleo; que acabamos por não expandir a consciência para a verdadeira dimensão do que nos rodeia.

E entretanto o tempo passa e corre veloz...e quando damos por isso é impactante!

Há uma frase dita, por um sábio certamente, que ressoa na minha mente muitas vezes:

"Não é só sobre ser luz e sim sobre iluminar caminhos" e que tiro daqui é que bons corações precisam-se, cada vez mais, particularmente num mundo de tanta maldade e escuridão mas têm de se materializar em acções.

Sairmos do nosso ninho para o mundo, olhar, refletir, orar e fazer, torna-nos mais humanos e provavelmente mais felizes. Um pequenino passo, faz a diferença, mesmo que nos pareça que não.
Termino com algo tão bonito dito por Baden Powell, fundador do escutismo:

"Procurai deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraste..."


Lucília Miranda


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Quaresma 2026 – Mensagem de D. Pedro Fernandes, Bispo de Portalegre-Castelo Branco

 



Caríssimas irmãs, caríssimos irmãos da Diocese de Portalegre-Castelo Branco:

Eis-nos chegados a um novo tempo de Quaresma, que se apresenta como uma nova oportunidade para parar e pôr em ordem a nossa vida. É tempo de reencontro com Cristo morto e Ressuscitado, reorientando a nossa vida, pessoal e eclesial, para o essencial: o Mistério de um Deus de Amor que assumiu a nossa humanidade até ao limite de dar a vida e, entregando-se ao Pai, transformar a morte (em todas as suas formas) em oportunidade de vida em plenitude, na comunhão com o Pai. É, na verdade, o grande dom de amor que restaura e reconcilia as pessoas consigo mesmas, umas com as outras e com Deus: restabelece e potencia, até ao infinito de Deus, a comunicação autêntica, as relações que constroem, a integração das diversidades numa unidade que tudo harmoniza e reorienta em Deus.

Precisamos de voltar a essa unidade. Para isso, a tradição viva da Igreja, fundada na Palavra de Deus, propõe-nos meios concretos para equilibrar a saúde da nossa relação connosco próprios, da nossa relação com os outros e da nossa relação com Deus, sendo que cada uma destas dimensões se entrelaça com as outras: exigem-se mutuamente e só nessa articulação integrada podem verdadeiramente funcionar.

Deixando-nos inspirar pela bela mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma, poderemos reencontrar-nos com a escuta da Palavra e com o jejum de tudo o que nos impede de comunicar bem, valorizando, nessas atitudes, os três grandes exercícios quaresmais: jejum, partilha e oração.


Pelo jejum, mais gratidão


O mundo contemporâneo e a conjuntura nacional e internacional recente apresentam desafios imensos, muitas vezes portadores de desalento e sofrimento. Precisamos de criar espaço em nós para nos tornarmos mais capazes de descobrir os dons que Deus nos concede e que habitam a nossa vida, assim como as oportunidades de crescimento pessoal e comunitário. Jejuar é também reduzir tudo aquilo que constitui ruído na nossa vida, equilibrando de modo assertivo os meios de que dispomos para acolher os dons que nos constroem: o Papa sugere-nos um jejum de palavras que ferem e dificultam a comunicação.

Talvez possamos introduzir um “menos” no que se refere ao recurso desenfreado às redes sociais: elas são um recurso valioso (veja-se o seu desempenho, por exemplo, na divulgação da informação e na mobilização para a ajuda, aquando das recentes calamidades), mas também são tantas vezes usadas num excesso que pode ir até ao ponto de não nos libertarem para relações mais autênticas, mas nos aprisionarem em dependências consumistas, que reduzem o outro a objeto de conexões superficiais e fugazes. Precisamos também de impor um “menos” na pressa e na correria desenfreada e um “mais” na gestão do tempo de qualidade, que nos forma e aproxima dos outros.

Jejuar de tudo o que nos confunde e impede de sermos mais nós mesmos, percebendo que os nossos apetites não são o centro e o critério decisivo, mas devem subordinar-se ao dinamismo do amor, tantas vezes exigente e crucificante. Só assim poderemos crescer no reconhecimento de tanto bem que enche a nossa vida e nos abre a janela da esperança: o nosso caminho tem sentido! O jejum deveria fazer-nos crescer na gratidão, colocando um “menos” nos ruídos interiores que não nos deixam escutar com maior nitidez o sussurro de Deus que nos repete: “Amo-te! Vales! Quero que sejas!”


Pela partilha, a Mansidão


Vivemos num mundo demasiado irado: a violência da linguagem e a dureza do coração, o crescimento da indiferença, o aparente sucesso dos grupos populistas que vociferam em discursos de ódio, discriminação e violência contra imigrantes, comunidades minoritárias ou simplesmente gente diferente. A facilidade com que a ira pode inventar culpados para o desconforto que sentimos, quando não permitimos que a gratidão fale mais alto que o ressentimento, gera no seio das nossas comunidades o desequilíbrio das relações e a perda de qualidade na comunicação. Precisamos de pedir ao Príncipe da Paz que nos conceda o dom da sua mansidão, que nos abra aos outros, que nos torne hospitaleiros à Palavra de Deus, que devemos ler e rezar cada dia até ao ponto de a reconhecermos na vida e no rosto de cada irmão. Por aí passa o exercício precioso da “esmola”, da partilha, que nos vai ensinando a colocar um “menos” no “meu” e um “mais” cada vez maior no “nosso”. Este ano, depois de escutar diferentes vozes da nossa diocese, proponho que a nossa renúncia quaresmal se oriente para uma partilha, distribuída em partes iguais, para duas finalidades: o fundo social diocesano, que socorrerá as situações de pobreza e calamidade, como a que temos vivido nas últimas semanas, por ocasião dos temporais que têm flagelado o nosso país; e as vítimas da pobreza e da violência na Terra Santa (Gaza e outras regiões da Palestina), a que faremos chegar a nossa solidariedade mediante a partilha enviada através do Patriarcado Latino de Jerusalém.

A onda de solidariedade que se gerou no país, e também na nossa diocese, em socorro de tantas pessoas em sofrimento por causa das devastações provocadas pelas tempestades recentes, deve inspirar-nos a certeza de que, entre nós, a solidariedade prevalece sobre a indiferença e a mansidão prevalecerá sobre a ira e a violência. Convido a revisitar os lugares das nossas vidas onde ainda é possível crescer para uma maior mansidão, colocando um “menos” no olhar que julga e condena, na palavra usada para ferir e não para curar. Menos agressão, mais esmola de mansidão, gentileza e hospitalidade, na linha do que também nos pede o Papa na sua mensagem.


Pela oração, a Confiança


O mundo contemporâneo, entre tantas conquistas tão boas que alcançou, não conseguiu ainda libertar-se do medo, que é um péssimo conselheiro: gera relações defensivas, sugere movimentos violentos, fechamentos egoístas, portadores de muita esterilidade e frustração. A oração, o outro pilar dos exercícios quaresmais, deverá abrir-nos à escuta de Jesus nas nossas vidas, libertar-nos da rigidez que nos impele a só nos ouvirmos a nós mesmos e nos impede de acolhermos o outro. Talvez possamos pedir ao Senhor, para esta Quaresma, um “mais” em confiança, exercitando um “menos” em posturas rígidas e defensivas, que nos dificultam a escuta a que apela o Papa.

Porque não, neste tempo que nos é dado, valorizarmos mais os tempos pessoais de silêncio e solidão fecunda, com a leitura da Palavra de Deus, priorizando os Evangelhos e os escritos de Paulo?


Enfim, comunicar bem


Para estes quarenta dias que nos são dados viver antes da grande festa da Páscoa, podemos assim partir com uma pergunta: qual a qualidade da minha comunicação? Como está a saúde da minha relação comigo mesmo, com os outros e com o Senhor?

Pelo jejum, pela partilha e pela oração, poderemos propor-nos a acolher de Jesus os dons da gratidão (para lá do que falta, há tanto que já somos!), da mansidão (o outro não é uma ameaça, é um dom que gera oportunidades!) e da confiança (é possível vencer o medo com o dom maior do amor!)

Todos com todos, rezemos para que este tempo de Quaresma seja uma grande oportunidade ganha, para valorizarmos a comunicação assertiva, equilibrando os “menos” e os “mais” que deverão concorrer para uma cada vez maior conversão!


+ Pedro Fernandes

(Bispo de Portalegre-Castelo Branco)

No olho da tempestade



Há, na vida, alturas assim. Em que nos vemos dentro da própria tempestade. Como se também ela fizesse parte de nós. Como se tudo à nossa volta fosse, simplesmente: caos, lama e destruição.

É assim que nos temos visto nas últimas semanas. A braços com uma intempérie externa que nos veio, igualmente, desregular internamente. Também nós parecemos trazer a chuva e o vento connosco, como se o próprio sol (de dentro e de fora) fosse uma miragem ou algo que já nem sabemos se existe.

Podemos pouco contra a natureza.

Podemos pouco contra a vida e os seus desígnios mais ou menos arbitrários.

Quando achamos que controlamos o que acontece, vem algo que nos retira as mãos do leme. Quando damos conta já estamos de cara no chão com a vida agarrada ao nosso pescoço.

Vivemos tempos desafiantes como seres individuais, como portugueses e como humanidade. Valorizámos, e valorizamos, durante demasiado tempo o excesso de trabalho, o ultrapassar de limites, o “passar por cima dos outros” a todo o custo, o egoísmo, a exaltação narcísica e individualista que trucidou o sentido de comunidade global.

Não nos esqueçamos que temos responsabilidades perante os que partilham caminho connosco. Também as temos perante os desconhecidos ou necessitados. E, em último caso, temos também a responsabilidade de cuidar de nós e do que somos.

Afinal, se eu não souber cuidar de quem sou e do que preciso como vou conseguir acender a lanterna para que outros me sigam?

Que saibamos atravessar esta altura tão profundamente instável e triste com a fé de que também isto passará. Como sempre. Como antes. Como daqui para a frente.

Também isto. E isso. Passará.

Marta Arrais

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Quarta- Feira de Cinzas

 


Quarta-feira de Cinzas, início da  Quaresma.
Amanhã, Quarta-feira de Cinzas nos recorda uma verdade simples e profunda: somos pó… e ao pó voltaremos. Mas esse “pó” é amado por Deus.
As cinzas traçadas sobre a nossa fronte não são sinal de derrota, mas de esperança. Elas nos chamam à conversão, ao retorno sincero ao coração do Pai. É o início de um caminho de deserto, silêncio e exame interior. Um tempo de jejum que nos esvazia do orgulho, de oração que nos aproxima do Céu e de caridade que nos faz tocar Cristo no irmão.

Catequista em missão

Não vim revogar mas completar




“A lei foi feita para ser quebrada.”
Ditado popular



Quem quer ser quebrado?

Quem quer viver só por viver?

Excluído da sociedade… excluído de tudo o que faz bem ao corpo e à Alma…

Não ter sol, nem lua. Ser rio sem mar. Malagueta que não pica.

Lágrima que não cai e gargalhada sem som!

Quem quer isso para si próprio?


O melhor da Vida é aquele sabor agridoce de quem não faz, não cumpre, não vai e não quer…

MAS, sabe que o caminho melhor é:

Fazer como Jesus

Cumprir como Maria Santíssima

Ir como o Espírito Santo

Querer ser Santa como a Igreja que O Cristo edificou


Uma vida sem lei é uma vida sem rumo e sem sabor!

É uma vida de um deus que não ama.

Uma vida de um povo que adora tudo, mas não dá dignidade nem respeita a própria Vida.


A coragem de querer, HOJE, viver segundo os Mandamentos da Lei de Deus,

faz de mim e de ti Seres Humanos com um coração capaz de ser alegre.

A alegria é essencial ao corpo.

Uma Alma triste não caminha… não abraça… não fala… não vive.


O que nos dá esse ânimo é a certeza que Deus nos ama até quando não O adoramos,

não O bendizemos, nem santificamos os Domingos e Feriados Santos…


É esta fidelidade ao Amor Divino que desperta em cada um de nós

o Amor por aqueles que partilham a terra connosco.

Só por Deus somos capazes de honrar os antepassados que não mataram, nem roubaram a bela imagem de um Jesus que SE fez Homem para nos salvar.

Um Messias que nos ensinou a verdade com gestos e palavras de carinho.

Um Salvador que completou a lei fria e cega, com Paz e Perdão.



Liliana Dinis

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

NAMORAR É UMA ARTE




O Dia dos Namorados não é apenas a celebração de um sentimento bonito. É, ou deveria ser, a celebração de uma escolha consciente: aprender a amar alguém real.
Como padre, tendo acompanhado tantos casamentos ao longo dos anos — em Angola, Moçambique e Portugal — percebi que tudo começa muito antes do altar. Começa no modo como se namora. No modo como se olha. No modo como se respeita.
Namorar não é possuir.
Não é moldar o outro à nossa medida.
Não é exigir que o outro seja o que imaginámos.
Namorar é aprender a contemplar. É descobrir quem o outro é — e permitir que o seja. Amar alguém é dar-lhe espaço para crescer, para respirar, para continuar a ser inteiro.
Quem ama não sufoca. Sustenta.
Quem ama não controla. Confia.
Quem ama não invade. Acolhe.
Há uma tentação subtil de transformar o amor numa fusão onde dois deixam de existir para se tornarem uma dependência. Mas o verdadeiro amor não apaga identidades. Potencia-as. O amor saudável é aquele em que dois caminham juntos, mas cada um permanece de pé.
Respeitar é amar.
Escutar é amar.
Dar tempo é amar.
Aceitar as diferenças é amar.
Namorar é aprender a linguagem do outro. É perceber que o silêncio também comunica. Que o espaço não é afastamento, mas maturidade. Que a liberdade não ameaça o amor — fortalece-o.
O Dia dos Namorados não devia ser apenas flores e fotografias. Devia ser um exame de consciência doce e sincero:
— Estou a amar ou estou a exigir?
— Estou a respeitar ou a impor?
— Estou a cuidar ou apenas a esperar ser cuidado?
O amor verdadeiro não é dramático nem teatral. É firme. É paciente. É construído em pequenos gestos diários. É saber pedir perdão. É saber esperar. É saber deixar o outro ser quem é — mesmo quando isso não coincide totalmente connosco.
Se estás a namorar, aprende a fazê-lo bem. Não tenhas pressa de chegar a etapas futuras sem consolidar o essencial: respeito, confiança, liberdade interior.
Porque amar alguém não é prendê-lo a nós.
É escolhê-lo — todos os dias — sabendo que ele é livre.
Neste Dia dos Namorados, que o amor seja mais do que emoção.
Que seja maturidade.
Que seja verdade.
Que seja espaço.
Que seja casa — onde dois permanecem, sem deixarem de ser quem são.

Padre João Torres